Gravações revelam como Prefeitura de Mossoró financiava esquema de desvio de medicamentos. | Foto: Divulgação/Polícia Federal

Cotidiano

Investigação Operação Mederi: escutas da PF citam Mossoró como “pulmão” de esquema bilionário investigado no RN

Transcrições exclusivas mostram sócios de distribuidora Dismed detalhando dependência de R$ 13,5 milhões da gestão Allyson; PF aponta prefeito como “o homem” da propina de 15%

por: NOVO Notícias

Publicado 20 de maio de 2026 às 13:20

Gravações da Polícia Federal obtidas no âmbito da Operação Mederi revelaram que a Prefeitura de Mossoró era tratada por operadores de um esquema bilionário de desvio de medicamentos como o “pulmão” de toda a engrenagem criminosa no Rio Grande do Norte.

Em áudios capturados por uma câmera escondida, os sócios da distribuidora Dismed confessam que a estrutura financeira dependia quase inteiramente dos contratos com a gestão de Allyson Bezerra (União Brasil), conforme divulgou o Blog do Dina nesta quarta-feira (20).

Segundo os autos, os empresários Oseas Monthalggan e Raimundo Wandecy, o “Nenén”, detalharam em conversas gravadas em maio de 2025 que, sem o volume de recursos de Mossoró, seria impossível sustentar as fraudes em outras prefeituras do estado. “Se não tivesse Mossoró, nós não tinha volume para ganhar não. (…) O pulmão enchia de ar”, afirmou Nenén em um dos trechos transcritos pela PF.

Os números levantados pelo Ministério Público Federal (MPF) confirmam o peso da cidade no esquema. Entre 2021 e 2025, a prefeitura repassou mais de R$ 13,5 milhões à distribuidora.

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Esse montante supera a soma de tudo o que a empresa recebeu de outros cinco municípios potiguares juntos (Serra do Mel, José da Penha, Apodi, Paraú e Pau dos Ferros). Mossoró respondia por 59% de todo o faturamento documentado nos autos.

A “Matemática de Mossoró” e os 15%

No diálogo mais forte, os investigados revelam o cálculo exato da divisão de propinas sobre as Ordens de Compra (OCs) emitidas pelo município. Conforme a transcrição da PF, para cada R$ 500 mil pagos pela prefeitura, a empresa entregava apenas metade em medicamentos. A outra metade era dividida entre a margem de lucro e o pagamento de vantagens indevidas.

Na conversa, Oseas cita uma barreira de retenção de 25% para pagamentos ilícitos, especificando “quinze do homem e dez disso aí”. Segundo o relatório da Polícia Federal (página 1043 do processo), “o homem” refere-se ao então prefeito, enquanto os 10% restantes seriam destinados a uma assessora de comunicação da gestão: “Se você vender um milhão, você só vai ver quinhentos”, resumiu o empresário.

Desdobramentos

A dependência do esquema em relação à prefeitura ficou comprovada após a fase ostensiva da Operação Mederi, deflagrada em 27 de janeiro de 2026. Sem o fluxo de caixa proveniente de Mossoró, o faturamento da Dismed despencou 87,13% em apenas um mês, inviabilizando as operações comerciais que a empresa mantinha em mais de 20 municípios do estado.

A defesa de Oseas Monthalggan nega a legalidade e o cabimento das medidas cautelares aplicadas pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5). Em notas anteriores, a assessoria jurídica da Prefeitura de Mossoró sustentou que todos os contratos com a distribuidora seguiram rigidamente os trâmites legais de licitação. A atual administração municipal ainda não emitiu pronunciamento oficial sobre o teor das escutas divulgadas.

Inquérito sob análise do TFR-5

O desembargador federal Rogério Fialho Moreira, do TRF-5, decidiu manter na Corte a supervisão do Inquérito Policial nº 0815703-53.2023.4.05.0000, que investiga as suspeitas de fraudes e desvios de recursos públicos na compra de medicamentos por prefeituras potiguares.

A decisão rejeita manifestação do Ministério Público Federal, que defendia o envio do caso para a primeira instância. Para o relator, há elementos concretos que justificam a permanência do inquérito no âmbito do Tribunal.

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