Por Giuseppi da Costa, salgadense, procurador-Geral da UFRN

Quando ainda criança, assisti à crueza de um filme real em Lagoa Salgada. Lá, os casamentos só tinham início quando as missas se encerrarvam, já no começo da tarde, portanto.Os noivos chegavam cedo e eram obrigados a permanecer uma eternidade na igreja. Nesse dia, concluída a liturgia, todos preparados para os casórios, a noiva simplesmente declarou ao noivo e aos demais presentes sua desistência, retirando-se em seguida do templo, sozinha, atravessando a rua, toda de branco e com véu e grinalda. Muita gente acompanhou-a até a porta e o acontecimento imediatamente tomou conta da então pequena vila. O coitado do pretendente abandonado, muito espantado, demorou para sair, e quando resolveu fazê-lo, as calçadas já estavam repletas para ver como estava. Desolado, teve que se submeter ao desfile da humilhação, ouvindo assovios e vendo sorrisos impiedosos nos rostos de alguns. Não poucos. Por muitas eras, não se falou em outra coisa no lugar.

Interessante que, à época, o rapaz foi dado como vítima do episódio. Mas à vista de informações posteriores, o quadro mudou.

Há poucos dias, identifiquei os protagonistas dessas cenas reais ocorridas na missa da festa de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Lagoa Salgada, quando corria o ano de 1962. Embora com apenas 10 anos, elas me marcaram tanto, que jamais saíram das minhas lembranças.

Por respeito à memória de ambos e aos seus parentes, não vou revelar nomes.

A jovem morava com seus pais no Sítio Tabatinga, área rural de Lagoa Salgada. O noivo era de Caiada de Baixo, município relativamente próximo. Por razões que desconheço, chegou na Salgadinha e ali se instalou.

Começaram um namoro, depois noivaram e agendaram o casamento na então capela do lugar, comandada pelo Padre Antônio, posteriormente conhecido como Monsenhor Barros, vigário de São José de Mipibu.

Pois bem. Finalmente, chegou o dia da festa nupcial. A família preparou tudo para celebrar o grande momento, como era de costume, com muita comida boa, sanfoneiro e tudo mais.

Foram para a igrejinha para a consagração da união definitiva do casal.

Foi aí que tudo entornou.

Quando Padre Antônio recomendou aos presentes que se pronunciassem sobre algum impedimento, se houvesse, para a proclamação do enlace, alguém que conhecia a história da vida do pretendente simplesmente declarou que ele era casado e sua esposa vivia em Caiada, hoje Elói de Souza.

O mundo tombou. O Padre se assustou. Os familiares e demais presentes ficaram perplexos. E a jovem noiva decidiu: “Vou embora”. E foi. Apesar das tentativas de alguma conversa mais alongada.

Tudo perdido.

Casamento acabado. Dentro da igreja.

A quase casada, depois do impacto forte a que foi submetida, soube se reorganizar. Encontrou outro noivo, casou, sem problemas, passado algum tempo, e construiu uma bela família, tornando-se mãe de 7 filhos.

Faleceu, faz poucos anos.

O quase marido partiu sem deixar rastros.

Como repetia minha saudosa mãe, Dona Idelvita, “Lagoa Salgada é o lugar pequeno das histórias grandes”.

A noiva era tia de um ilustre e atual vereador do Municipio.