Foto: Alexandre Santos/Agimare

Cotidiano

Meio ambiente Algas que transformam: cultivo no litoral do RN impulsiona bioeconomia

O cultivo de macroalgas, especialmente do gênero Gracilaria, tem se consolidado como uma alternativa sustentável capaz de unir preservação ambiental, inovação científica e geração de emprego e renda no Rio Grande do Norte

por: Marline Negreiros

Publicado 4 de maio de 2026 às 15:30

No encontro entre o mar e os manguezais do litoral potiguar, uma cadeia produtiva silenciosa começa a ganhar força e significado. O cultivo de macroalgas, especialmente do gênero Gracilaria, tem se consolidado como uma alternativa sustentável capaz de unir preservação ambiental, inovação científica e geração de emprego e renda no Rio Grande do Norte.

À frente dessa transformação está o projeto Algimare – Algicultura como Renda e Preservação Ambiental, desenvolvido pelo Centro AMA-GOA de Cultura e Meio Ambiente em parceria com a Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (EMPARN), com apoio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

Implantado nas comunidades de Diogo Lopes, em Macau, e em Galinhos, o projeto aposta no cultivo controlado de algas marinhas em áreas de braço de mar protegidas por manguezais e formações arenosas. Mais do que uma atividade produtiva, a iniciativa surge como um vetor de desenvolvimento local baseado na chamada bioeconomia — o uso sustentável de recursos naturais com valor agregado.

Do mar ao campo: o potencial dos biofertilizantes

Ricas em nutrientes como nitrogênio e potássio, as macroalgas cultivadas no projeto têm múltiplas aplicações. Entre elas, a produção de biofertilizantes se destaca como uma alternativa ecológica aos insumos químicos tradicionais.

O primeiro cultivo experimental do projeto já demonstrou esse potencial: com 12 cordas distribuídas em dois módulos, foram produzidos 85,95 quilos de algas, que podem ser beneficiadas para diferentes usos, incluindo fertilizantes naturais.

Além do impacto ambiental positivo, a utilização das algas reforça uma lógica produtiva mais limpa. “O cultivo de macroalgas não apresenta impactos negativos, já que são organismos que absorvem gás carbônico e liberam oxigênio no ambiente”, destacam os pesquisadores envolvidos na iniciativa.

Capacitação e novas perspectivas para comunidades tradicionais

Embora ainda esteja em fase inicial, com foco na capacitação, o projeto já mobiliza cerca de 50 beneficiários diretos, entre pescadores, marisqueiras, jovens e estudantes das comunidades atendidas. A proposta é preparar essa população para atuar não apenas no cultivo, mas também no beneficiamento e na diversificação dos produtos derivados das algas.

Cursos de produção de biofertilizantes, cosméticos e alimentos com base em algas já foram realizados, com forte adesão, especialmente entre jovens adultos. A formação técnica é vista como um dos pilares para consolidar a cadeia produtiva no estado.

A expectativa é que, com o avanço do projeto, o cultivo de algas se torne uma fonte complementar — e, em alguns casos, alternativa — de renda para famílias que tradicionalmente dependem do extrativismo.

“Em comunidades onde há coleta de mariscos, a introdução de uma atividade como essa pode melhorar a qualidade de vida, por exigir menos esforço físico e ampliar as oportunidades econômicas”, explica a bióloga da Emparn e coordenadora do projeto Agimare, Terezinha Lúcia dos Santos.

Desafios regulatórios e segurança ambiental

A implantação do cultivo, no entanto, exigiu o cumprimento de uma série de etapas legais e ambientais. Como as áreas utilizadas pertencem à União, foi necessário obter autorização do Ministério da Pesca e Aquicultura, da Marinha do Brasil e da Secretaria do Patrimônio da União (SPU).

Além disso, o projeto conta com licença ambiental do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) e autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para a retirada de mudas em bancos naturais.

Segundo os coordenadores, o cumprimento rigoroso dessas exigências garante a sustentabilidade da atividade e abre caminho para sua expansão.

Um modelo com potencial de crescimento

O cultivo de macroalgas já é realidade em outras regiões do país, como Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. No Nordeste, estados como Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte começam a estruturar essa cadeia produtiva com espécies nativas.

A tendência, segundo especialistas, é de crescimento. Além de gerar renda, a atividade pode contribuir para fixar jovens nas comunidades litorâneas e reduzir a pressão sobre recursos naturais explorados de forma extrativista.

No Rio Grande do Norte, o Algimare dá os primeiros passos nessa direção, mostrando que, entre as marés e os manguezais, há mais do que biodiversidade: há oportunidade de desenvolvimento sustentável com identidade local.

E, nesse cenário, as algas deixam de ser apenas parte da paisagem para se tornarem protagonistas de uma nova economia — verde, inclusiva e promissora.

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