Calor intenso no interior do RN tem explicação local e não está ligado à onda de calor que atingiu outras regiões do país. | Foto: Reprodução

Cotidiano

Clima RN fica fora da onda de calor nacional, mas temperaturas seguem altas por causas locais

Emparn explica por que o calor persiste no interior do estado mesmo sem influência direta do fenômeno climático

por: Marline Negreiros

Publicado 5 de janeiro de 2026 às 15:30

Apesar das temperaturas elevadas registradas em algumas regiões do RN nos últimos dias, o estado não deve ser atingido pela onda de calor que atuou sobre o Centro-Oeste e Sudeste do país, segundo avaliação da Empresa de Pesquisa Agropecuária do RN (Emparn). A explicação foi dada pelo meteorologista Gilmar Bristot, em entrevista, ao detalhar os sistemas atmosféricos que influenciam o clima potiguar neste início de ano.

Segundo Bristot, a onda de calor teve origem no Centro-Oeste, associada ao deslocamento de uma massa de ar quente vinda do deserto do Atacama, e avançou para estados como São Paulo e Minas Gerais. No entanto, a formação de uma frente fria no Sul do país, que avançou até o Sudeste, provocou a dissipação do fenômeno, impedindo sua propagação para o Nordeste.

Essa onda de calor já está perdendo força e não consegue manter suas características para atingir o Nordeste. Aqui no Rio Grande do Norte, o que estamos observando são temperaturas mais altas por fatores locais, e não por influência direta desse fenômeno”, explicou.

Calor no interior tem causas locais

Segundo o meteorologista, municípios do Seridó e do Vale do Açu, como Caicó, Serra Negra do Norte e Timbaúba dos Batistas, registraram temperaturas acima dos 38 °C recentemente. Esse aumento, no entanto, está associado a uma combinação de pouca nebulosidade, baixa umidade do ar, forte radiação solar e características geográficas, especialmente em áreas de vale.

“Nessas regiões há influência da umidade do Rio Piranhas e de reservatórios, que retém calor, além da ausência de nuvens para filtrar a radiação solar. Isso favorece temperaturas mais elevadas, mas não caracteriza uma onda de calor”, ressaltou.

No litoral, a situação é diferente. Bristot destaca que os ventos acima da média para o período têm garantido a renovação constante do ar, impedindo o aquecimento excessivo durante o dia. No entanto, a redução dos ventos durante a madrugada tem provocado sensação de calor maior nas primeiras horas da manhã, um comportamento considerado atípico.

La Niña influencia circulação dos ventos

Atualmente, o Oceano Pacífico apresenta condição de La Niña fraca, o que, segundo Bristot, favorece maior circulação atmosférica e reduz a formação de bloqueios de alta pressão — comuns em anos de El Niño forte.
“Com a La Niña, o ar circula mais, os ventos ficam mais intensos e isso dificulta o acúmulo de calor. Além disso, o Atlântico Sul está um pouco mais frio, o que reforça a atuação dos ventos no Nordeste”, explicou.

Esse cenário, embora contribua para temperaturas mais amenas no litoral, também dificulta a formação de chuvas, já que a circulação intensa impede a organização de sistemas meteorológicos mais duradouros.

Pouca chuva é comum nesta época

O meteorologista esclarece que não há relação direta entre onda de calor e a escassez de chuvas observada no estado. Historicamente, este é um período de pouca precipitação no Nordeste, marcado pela atuação de sistemas meteorológicos transientes, como restos de frentes frias, vórtices ciclônicos e linhas de instabilidade.

“Esses sistemas têm baixa previsibilidade. Eles podem atuar ou não, e quando atuam, nem sempre provocam chuva significativa”, afirmou.

A expectativa é de que haja alguma normalização a partir da segunda quinzena de janeiro, com possibilidade de chuvas pontuais provocadas por esses sistemas.

Reservatórios preocupam para 2026

Um dos pontos de maior atenção, segundo Bristot, é o nível dos reservatórios no estado, que atualmente está em torno de 38% da capacidade total — bem abaixo dos quase 60% registrados ao final de 2024.
“Se não houver uma recarga expressiva em 2026, podemos terminar o ano com menos de 15% da capacidade, uma situação semelhante à vivida em 2017, após um longo período de seca”, alertou.

A preocupação aumenta diante da previsão de dificuldade na formação de chuvas entre fevereiro e maio, período tradicional da quadra chuvosa no RN, devido ao posicionamento desfavorável da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), influenciado pela diferença de temperatura entre o Atlântico Norte e o Atlântico Sul.

Monitoramento segue contínuo

Apesar do cenário de atenção, a Emparn segue monitorando as condições oceânicas e atmosféricas. Um possível resfriamento contínuo do Atlântico Norte pode favorecer a descida da ZCIT e melhorar o volume de chuvas a partir de março.
“O monitoramento é permanente. Ainda é cedo para uma conclusão definitiva, mas os dados atuais indicam um cenário desafiador para a agricultura e para o abastecimento hídrico em 2026”, concluiu Bristot.

O que é uma onda de calor?

Diferente do calor comum do verão, a onda de calor é o deslocamento de uma massa de ar quente originada em regiões secas, como desertos. Ela se propaga conforme a circulação atmosférica e perde força à medida que encontra sistemas frios, como frentes frias.

Por que faz mais calor no interior do RN?
• Pouca formação de nuvens
• Forte radiação solar direta
• Presença de vales e umidade local
• Menor circulação de ventos

Níveis dos reservatórios no RN
• Final de 2024: cerca de 60%
• Final de 2025: cerca de 38%
• Risco para 2026: abaixo de 15% se não houver recarga significativa

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