Geraldo Pinheiro é médico psiquiatra e escreve para o NOVO quinzenalmente.
Ao longo desses dias, entrando em contato com as leituras do livro “Memorial do inverno”, do escritor e jornalista Roberto Pompeu de Toledo, deparei-me com um futuro ingrato, mas inescapável, certo: a velhice.
É claro que, como dizia minha mãe, “quem de moço não morre, de velho não escapa”. Por isso, em eu não estando ainda na fase de idoso, posso estar, na verdade, sendo presunçoso ao dizer inescapável. Ou talvez a presunção esteja no fato de achar que a minha velhice ainda vai chegar…
Acontece que, como diz Pompeu (que, durante muitos anos, foi responsável pela última página da revista VEJA), a velhice é uma surpresa.
Surpresa!? Alguns não compreenderão o que tem de surpresa em ficar velho, uma vez que todos sabemos que “o tempo não para” (não é, Cazuza?). Surpresa, sim, porque o sujeito que está passando por essa transição – da dita meia-idade para a idade idosa – não se saberá velho, não se reconhecerá idoso até que alguém, ou alguma situação o alerte sobre essa evidência e, muitas vezes, sem aviso prévio; quase sempre com indelicadeza, sim; algumas vezes com dor; mas sempre com implacabilidade.
Quando os colegas de faculdade de Helena (minha filha, que está cursando o segundo ano de Medicina), gente de cerca de 20 e poucos anos, me chamam de “tio”, sinto a facada da percepção da passagem do tempo. Há pouquíssimo tempo, eu tinha 20 e poucos anos e fazia medicina!
Para os que ainda não chegaram lá e, portanto, desconhecem essa realidade, aviso: provavelmente você não saberá que terá ficado velho; vai saber – espero que de uma forma não tão dolorosa – já depois de ter ficado. Será que eu já fiquei? Bom, acho que ainda não.
Deveria haver um treinamento para isso. Sempre converso com uma grande amiga (colega de turma) geriatra sobre isso. Deveria haver um curso pra aprendermos que vamos ficar velhos e que, mais importante, ao ficarmos velhos, não somos mais novos.
Ao não sermos mais jovens, pasmem: não temos mais muitas coisas que os jovens têm! E, como só se envelhece uma vez na vida, às vezes só aprendemos isso quando levamos uma queda e quebramos o fêmur.
Eu estava esses dias conversando com o meu fisioterapeuta do pilates. Um dos meus colegas de pilates (esse, sim, já idoso) sofreu uma queda e fraturou o fêmur – essa é uma tragédia anunciada (para citar Gabriel García Márquez). Estávamos (eu e o fisioterapeuta) refletindo sobre isso. O idoso que não passou pelo curso de velhice (mas, agora me ocorre, passar por esse curso não necessariamente preveniria completamente esse tipo de coisa, mas certamente diminuiria os riscos) não sabe que não tem mais a mesma agilidade, os mesmos reflexos, o mesmo equilíbrio, a mesma força física, a mesma qualidade da estrutura óssea, a mesma memória; os órgãos dos sentidos não funcionam mais da mesma forma.
Em virtude dessa ausência de consciência, tragédias (maiores ou menores) acontecem.
Não é à toa que Cecília Meireles já nos mostrava a melancolia da velhice em seu belo poema “Retrato”, escrito no livro “Viagem”, publicado em 1939. Ei-lo:
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Acredito que é perceptível a melancolia contida nesses versos, assim como é perceptível a melancolia que é, para uns (não poucos) a velhice.
Mas a velhice não precisa ser assim e não o é para outros (não tão poucos). A velhice pode vir com razoável saúde física e mental. Ela pode vir com a sabedoria dos anos vividos e com a experiência das dores e sabores, vitórias e derrotas de toda uma vida. Ela também pode fazer-se presente com o presente dos netos e bisnetos, vitórias e conquistas dos filhos, etc.
Trajetórias boas e más são possíveis. É claro que, uma vez instalada a idade da senescência – carregada de suas dificuldades naturais – muitas coisas podem ser feitas para diminuir os riscos, prevenir outros problemas e tratar os já existentes.
Contudo, está mais do que claro que, ao começarmos a prevenção ainda antes de ela (a “desejada das gentes” – perdoe-me, Manuel Bandeira, mas, se a indesejada das gentes é a morte, a velhice é “desejada”; advirto ainda que o título do texto nada tem a ver diretamente com o conto de Machado de Assis) chegar, teremos mais chances de vivermos as últimas décadas de vida com mais qualidade. Esse caminho passa necessariamente por educação (aliás, o que é que não passa por educação?) do indivíduo quando jovem sobretudo. Preparemo-nos!
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