O índice de Natal é superior à média nacional, que se mantém em 30% desde 2023. Foto: Reprodução

O índice de Natal é superior à média nacional, que se mantém em 30% desde 2023. Foto: Reprodução

Economia

Vice Mais de um terço da renda das famílias  natalenses é usado para pagar dívidas

Capital potiguar é a segunda capital do país com maior comprometimento da renda por dívidas, aponta levantamento. Pelo menos 85% das famílias estão endividadas atualmente

por: NOVO Notícias

Publicado 25 de maio de 2026 às 17:00

Natal registra o segundo maior percentual de comprometimento de renda familiar com dívidas entre as capitais brasileiras. De acordo com o estudo Radiografia do Endividamento de 2026, elaborado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio SP), 35,6% dos rendimentos mensais dos lares na capital potiguar são destinados ao pagamento de débitos.

O índice de Natal é superior à média nacional, que se mantém em 30% desde 2023. No ranking das situações mais críticas, a cidade de Teresina (PI) lidera com 42,4% da renda comprometida, seguida por Natal e Macapá (AP), com 35,5%. No extremo oposto, João Pessoa (PB) apresenta a menor taxa do país, com 15%, seguida pelo Distrito Federal, com 22%.

Em âmbito nacional, o número total de famílias endividadas voltou a crescer, atingindo 80% dos lares em 2026, contra 76% registrados no ano anterior. Belo Horizonte, Fortaleza, Vitória e Rio de Janeiro possuem os cenários mais graves de endividamento absoluto. A capital mineira também é a mais inadimplente, com contas vencidas em 65% das famílias.

Essas diferenças também podem ser notadas no valor absoluto das dívidas familiares das capitais. Nesse sentido, Florianópolis (SC) é onde esse montante é mais alto: R$ 6,4 mil por mês, o que é suavizado pelo fato de a cidade ter a segunda maior renda média familiar entre as capitais. Não é o que acontece em Belo Horizonte, porém, cujas dívidas chegam a quase R$ 5 mil mensais e a renda média é de R$ 8,2 mil.

Outro levantamento da Fecomércio aponta que pelo menos 85% das famílias de Natal fecharam o ano de 2025 com dívidas ativas. O índice da capital potiguar superou a média nacional, fixada em 80%. Natal ocupa a 10ª posição no ranking das capitais com maior percentual de endividamento, ao lado de Porto Alegre, Curitiba e Cuiabá. Fortaleza e Belo Horizonte lideram a lista com 90% de famílias endividadas, enquanto Belém registrou o menor índice, com 70%. O levantamento define como dívida compromissos financeiros futuros, como parcelas de cartão de crédito e carnês.

O estudo também detalhou o índice de inadimplência, referente às contas que já venceram e não foram pagas. Em Natal, 32% das famílias possuem contas em atraso. O número representa uma redução na comparação com os últimos anos, visto que o índice era de 56% em 2023. Atualmente, Natal aparece empatada com Palmas na nona posição nacional de inadimplência. João Pessoa registra a menor taxa (12%) e Belo Horizonte a maior (65%).

Segundo o economista Helder Cavalcanti, a facilidade de acesso ao crédito em ambientes virtuais e a falta de educação financeira explicam o cenário. Dados citados pelo especialista indicam que o Brasil possui 236 milhões de cartões de crédito para uma população de 214 milhões de habitantes. O modelo de consumo atual estimula a aquisição de produtos por meio de juros elevados, dificultando a quitação dos débitos.

O endividamento tem gerado reflexos na economia real e na saúde pública. De acordo com a análise técnica, o comprometimento da renda com o pagamento de juros e o crescimento do volume destinado a apostas e jogos reduzem a capacidade de compra das famílias. Cavalcanti ressalta ainda pesquisas que associam o nível de dívidas a problemas de saúde mental, apontando a orientação orçamentária como o principal gargalo para o equilíbrio do mercado.

Desenrola

Para tentar mitigar o cenário, o programa Desenrola 2.0 permite a renegociação direta entre consumidores e instituições financeiras. O Governo Federal atua como garantidor por meio do Fundo de Garantia de Operações (FGO), com aporte inicial de R$ 2 bilhões. As novas regras permitem o uso do FGTS para quitar débitos, mas restringem o acesso de participantes a plataformas de apostas online pelo período de 12 meses.

Há, agora, mudanças relevantes, como a comunicação direta entre consumidor e instituição financeira, sem necessidade de intermediação do Gov.br. Contudo, o governo passa a atuar como garantidor desse crédito, por meio do Fundo de Garantia de Operações (FGO). Caso o inadimplente deixe de pagar o valor renegociado, o Poder Público cobre o não pagamento. São R$ 2 bilhões iniciais, com potencial de ampliação para até R$ 5 bilhões mediante autorização do Executivo, além de outros R$ 8 bilhões de recursos atualmente parados no sistema financeiro. Em outras palavras, a sociedade, de alguma forma, participa do financiamento do programa.

O uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitar dívidas também pode gerar alívio imediato, mas não é solução para o desequilíbrio estrutural das contas, podendo resultar em inadimplência posterior, mas com menor proteção financeira.

Tags