Espécies de coral que ocorrem no país tiveram sua classificação de risco elevada. | Foto: Marcelo Kitahara / Cebimar

Cotidiano

Meio ambiente Espécies de corais da costa brasileira entram em perigo crítico de extinção

Espécies Millepora braziliensis e Millepora laboreli como “criticamente em perigo”, categoria imediatamente anterior à extinção na natureza

por: NOVO Notícias

Publicado 30 de junho de 2026 às 18:00

O Ministério do Meio Ambiente e o ICMBio elevaram o grau de ameaça para todas as espécies de coral-de-fogo do gênero Millepora que ocorrem no Brasil. A atualização da Lista Nacional de Espécies Aquáticas Ameaçadas de Extinção, publicada em abril, classificou as espécies Millepora braziliensis e Millepora laboreli como “criticamente em perigo”, categoria imediatamente anterior à extinção na natureza.

A reclassificação técnica é motivada pelo aquecimento dos oceanos e pelo aumento da frequência de ondas de calor marinhas, que provocam o branqueamento em massa. Entre 2023 e 2025, o fenômeno atingiu 84% das áreas recifais em 82 países. No Brasil, o evento de branqueamento de 2023-2024 gerou perdas severas em colônias de corais, com impacto acentuado na região Nordeste.

Além do fator climático, pressões locais como a poluição por esgoto, contaminação por agrotóxicos e a sobrepesca de peixes herbívoros comprometem a saúde dos recifes. De acordo com Guilherme Longo, professor do Departamento de Oceanografia e Limnologia da Universidade Federal do RN (UFRN), algumas áreas já apresentam um declínio quase completo, restando apenas esqueletos de colônias antes abundantes.

A espécie Millepora alcicornis também foi reclassificada para a categoria “em perigo”, após registros de mortalidade superiores a 90% nos eventos recentes. Já a Millepora nitida passou a figurar como “quase ameaçada”. O Brasil concentra os únicos sistemas recifais do Atlântico Sul, e três das quatro espécies do gênero Millepora identificadas no país são exclusivas da costa nacional.

Diante da gravidade do cenário, pesquisadores do Instituto Oceanográfico da USP e da Universidade Federal da Bahia (UFBA) discutem estratégias de conservação ex situ, que consiste na manutenção de colônias em sistemas artificiais controlados. Paralelamente, estudos genéticos buscam identificar populações naturalmente mais resistentes ao estresse térmico para fundamentar ações de restauração e monitoramento sistemático do litoral brasileiro.

Esqueletos de colônias de Millepora alcicornis e Mussismilia harttii mortas devido ao branqueamento ocorrido em 2023-2024. | Foto: Marcelo Kitahara / Cebimar

Medidas de preservação

Pesquisadores brasileiros discutem a remoção de colônias de corais de seu ambiente natural para sistemas artificiais, como tanques e aquários, visando garantir a sobrevivência de espécies ameaçadas. A estratégia, denominada conservação ex situ, ganha relevância após o evento global de branqueamento de 2023–2025, que afetou 84% das áreas recifais em 82 países e territórios.

O declínio dos recifes é impulsionado pelo aquecimento dos oceanos e por pressões locais, como poluição por esgoto, fertilizantes, agrotóxicos e sobrepesca. Segundo o oceanógrafo Marcelo Kitahara, do CEBIMar/USP, a redução de peixes herbívoros favorece a proliferação de algas que sufocam as colônias. Esse efeito combinado fragiliza ecossistemas que, embora ocupem apenas 0,1% da área marinha global, concentram 25% da biodiversidade oceânica.

Na última atualização da Lista Nacional de Espécies Aquáticas Ameaçadas de Extinção, todas as espécies de coral-de-fogo (Millepora) tiveram o risco elevado. As espécies M. braziliensis e M. laboreli são classificadas como “criticamente em perigo”. Outras espécies construtoras de recifes, como a Mussismilia harttii e a Mussismilia braziliensis, também figuram nas categorias “em perigo” e “vulnerável”, respectivamente.

Estudos genéticos realizados após a onda de calor de 2019 identificaram genótipos da espécie Millepora alcicornis associados a mecanismos de reparo de DNA, o que sugere maior resistência ao calor. Entretanto, a comunidade científica ressalta que o potencial adaptativo é insuficiente frente à velocidade da mortalidade atual. Protocolos internacionais, como os testados na Austrália e nos Estados Unidos, já utilizam reprodução assistida e treinamento térmico para tentar aumentar a resiliência dos organismos.

O monitoramento técnico nacional, coordenado pelo Projeto Coral Vivo, utiliza dados de satélite da agência norte-americana NOAA para acompanhar anomalias térmicas. O monitoramento aponta que regiões ao norte de Salvador sofrem aquecimentos mais intensos. Para o professor Guilherme Longo, da UFRN, a saúde dos recifes está diretamente conectada ao equilíbrio climático global, influenciando atividades como a pesca, o turismo e a proteção da linha de costa.

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