Com redução de tarifas, menos burocracia e acesso facilitado a um dos maiores mercados consumidores do planeta, micro e pequenos empreendedores do Rio Grande do Norte enxergam no acordo Mercosul–União Europeia a chance de internacionalizar produtos regionais e ampliar receitas.
Por décadas, exportar foi uma realidade distante para a maior parte dos pequenos negócios do Rio Grande do Norte. Entre exigências burocráticas, tarifas elevadas e dificuldades logísticas, vender para o exterior parecia privilégio de grandes empresas.
Mas a entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, no último dia 1º de maio, começa a redesenhar esse cenário — e pode abrir uma nova rota econômica para micro e pequenos empreendedores potiguares.
Com a promessa de redução ou eliminação de tarifas para mais de 5 mil produtos brasileiros, além da simplificação de processos aduaneiros, o tratado aproxima empresas nordestinas de um mercado formado por cerca de 450 milhões de consumidores e um dos maiores poderes de compra do mundo.
No Rio Grande do Norte, a expectativa se concentra especialmente em setores já consolidados na economia local, como fruticultura, alimentos industrializados, derivados do caju e indústria da moda. Segmentos que, além da escala produtiva, carregam um diferencial valorizado no mercado europeu: identidade regional.
Para o gerente de Negócios e Inovação do Sebrae-RN, David Góis, o acordo representa uma oportunidade histórica para diversificar mercados e fortalecer a competitividade das pequenas empresas potiguares.
“Também existe uma simplificação sobre regras e documentação para entrada desses produtos no mercado europeu. Isso permite que nossos empresários possam vender para um mercado de maior poder aquisitivo, recebendo, muitas vezes, um preço superior ao praticado no mercado nacional”, afirma.

Segundo ele, a abertura comercial chega em um momento estratégico para o Nordeste. Dados da plataforma Data Nordeste, da Sudene, apontam que a região registrou em 2025 o maior volume exportado dos últimos três anos: US$ 24,8 bilhões. Os produtos do reino vegetal lideraram a pauta exportadora, somando US$ 6,9 bilhões.
Oportunidade para quem já nasceu pequeno
Embora o comércio internacional ainda seja visto como um ambiente complexo para pequenos empresários, empresas potiguares que já iniciaram esse caminho acreditam que o acordo pode tornar o processo mais acessível.
É o caso da Zetta Molhos, empresa potiguar comandada por Francisco José de Queiroz Júnior, o Junior Queiroz. Para ele, o tratado representa mais do que uma abertura comercial: significa democratizar oportunidades.
“O Mercosul representa uma oportunidade estratégica para pequenas empresas ampliarem vendas, reduzirem custos de exportação e alcançarem mercados internacionais de forma mais acessível e competitiva”, diz. Na avaliação do empresário, um dos principais avanços está na simplificação dos processos burocráticos e na padronização das regras comerciais.

A experiência prática de quem já atua fora do país também revela que internacionalizar um negócio exige planejamento e adaptação. Por isso, Junior aconselha cautela e preparação aos empreendedores interessados no mercado europeu. “É importante buscar apoio especializado, conhecer o mercado, planejar os custos logísticos e começar, inicialmente, por mercados mais próximos”, orienta.
Produtos com história e identidade
Outro segmento que acompanha o avanço do acordo com expectativa é o de produtos regionais alimentícios. Fundadora da Cajumel, empresa especializada em derivados do caju, Sahonara Suzane acredita que o mercado europeu vive um momento favorável para negócios com autenticidade e valor agregado.
“A União Europeia valoriza cada vez mais produtos naturais, artesanais e com propósito. Isso favorece diretamente pequenos empreendedores nordestinos, que carregam história, cultura e originalidade em seus produtos”, afirma.
Para Sahonara, o acordo também pode ajudar a criar uma nova mentalidade empresarial no estado: a cultura exportadora. “Acordos como esse incentivam mais empresas a se prepararem para atender padrões internacionais e a enxergarem o mercado externo como uma possibilidade real.”

A empresária reforça que exportar não começa apenas quando a venda internacional acontece. O processo, segundo ela, inicia muito antes, dentro da própria empresa. “É importante investir em organização interna, padronização, embalagem, posicionamento da marca e conhecimento sobre exigências internacionais. Exportar envolve estratégia, consistência e construção de marca”, explica.

Ela acredita que muitos pequenos empreendedores ainda subestimam o valor dos próprios produtos. “Muitas vezes, os produtos mais valorizados no exterior são justamente aqueles que carregam autenticidade e identidade regional — algo que o Rio Grande do Norte tem de sobra.”
Fruticultura e moda devem sair na frente
No entendimento do Sebrae-RN, alguns setores têm potencial mais imediato para aproveitar os benefícios do acordo. A fruticultura aparece como principal destaque, devido à maturidade produtiva e à experiência exportadora já consolidada do estado.
Hoje, frutas tropicais produzidas no Nordeste já possuem presença consolidada em mercados europeus, especialmente nos Países Baixos, principal destino das exportações nordestinas para a União Europeia.
O desafio da preparação
Apesar do entusiasmo, o acesso ao mercado europeu continua exigindo adequações técnicas e estratégicas. A União Europeia possui regras rigorosas relacionadas à rastreabilidade, sustentabilidade, rotulagem e origem dos produtos. Por isso, a preparação passa a ser palavra-chave.
“Os empresários precisam classificar corretamente seus produtos, entender as exigências fiscais, compreender as regras de origem e estudar as tarifas para precificar adequadamente”, explica David Góis.
Segundo ele, o Sebrae-RN deve ampliar a atuação justamente nesse processo de capacitação empresarial. Entre as iniciativas está o programa RN Mais Exportação, desenvolvido para apoiar empresas que já possuem interesse ou experiência inicial com o mercado internacional. A proposta inclui orientação prática, capacitação e conexão com parceiros estratégicos para ampliar a inserção de empresas potiguares no comércio exterior.
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