Geraldo Pinheiro é médico psiquiatra e escreve para o NOVO quinzenalmente.

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Opinião

Artigo Geraldo Pinheiro: Força estranha

Obrigado, dona Marta, por ter aprendido tanto com a senhora, por ter tido a oportunidade de ter participado da sua vida e por poder, ainda hoje, passados 7 anos dessa história, ainda me lembrar, com a mesma carga de emoção, de com a sensibilidade é importante nas nossas vidas

por: Geraldo Pinheiro, médico psiquiatra

Publicado 7 de abril de 2026 às 17:25

Neste domingo de Páscoa, recebi de uma colega de turma (hoje em dia, ela é muito mais do que uma colega, é uma grande amiga, é uma verdadeira irmã, que um dia encontrou uma forma de me salvar, mas isso é uma outra história…) uma deliciosa lembrança. Compartilhou comigo uma foto de uma carta que ela escreveu para um amigo comum (que depois virou seu marido), citando meu nome, dizendo que aprendeu comigo “a importância de dar grandes notícias através de cartas, pois, com ela, é possível guardar e reviver aquela notícia, na íntegra, sempre que queira”.

Acontece que a notícia que ela estava dando era o fato de ela estar gestante. E, nesta carta, ela ainda diz ao amigo: “o tempo agora vai parar quando você olhar para a minha barriga porque ela está preparando um novo ser” – uma clara referência à bela música de Caetano Veloso, força estranha.

Inevitáveis as emoções com uma coisa dessas. Ao mesmo tempo que as emoções começaram a chegar, lembranças – que, aliás, é um dos vínculos mais bem sabidos da neurociência (emoções e memórias) – também foram se chegando…

Ao longo da minha formação em Psiquiatria, tive a oportunidade de conhecer Dona Marta (este nome é real; tive a permissão de citar o seu nome, concedida por sua filha). Infelizmente, Dona Marta não está mais entre nós. Entretanto, como é próprio dos pacientes e dos médicos, construí com ela uma relação de aprendizado, além de, humildemente, ter contribuído para o seu processo de estabilização clínica.

Dona Marta internou na nossa enfermaria em um episódio depressivo e eu fui o médico residente designado para cuidar do seu caso, sob a supervisão do meu preceptor. 

Desde o início, ela me avisava: “Doutor Geraldo, o senhor está perdendo o seu tempo comigo, eu não vou melhorar, é melhor o senhor dedicar seu tempo a outros pacientes, porque o meu caso não tem jeito”. Em todas as manhãs, eu voltava a visitá-la e ela sempre me recebia nesses termos.

Em função do diagnóstico, estabelecemos um regime terapêutico farmacológico. Além das minhas entrevistas e intervenções, havia também a participação da psicologia, da terapia ocupacional, da enfermagem. Nada parecia fazê-la melhorar, nem os bordados.

Esta paciente era uma exímia bordadeira, a filha me explicava. Vi que ali poderia haver uma oportunidade de estabelecer com ela um melhor vínculo e, quem sabe, facilitar o surgimento de alguma motivação.

Consegui que ela me explicasse que o bordado de qualidade é diferenciável, você percebe pelo verso da imagem que foi elaborada. Ela dizia: “para você ver se um bordado foi bem feito, tem que olhar o outro lado; se estiver uma bagunça, a pessoa não sabe bordar”. De fato, consegui que ela fizesse discretos bordados e pude ver que, nos trabalhos dela, o verso era quase igual à imagem (na verdade, era uma imagem espelhada). Sim, dona Marta tinha perícia no que fazia.

Porém, embora eu tivesse conseguido iniciar um vínculo com a história dos bordados e embora eu tivesse conseguido que ela fizesse uma coisa ou outra, ela seguia categórica: “doutor Geraldo, eu não tenho jeito, o senhor está perdendo seu tempo”. 

Todavia, ainda existia uma outra força que iria mudar essa história, uma “força estranha”…

“Dona Marta”, eu disse, “a senhora gosta de música”? Como de quase sempre, houve latência de resposta, demorou uns 30 segundos para me responder. Pacientemente, ouvi: “sim, eu gosto; o que isso tem a ver?” 

“É mesmo, e gosta de violão? Gosta de quais músicos, cantores?” Ela me disse: “sim, gosto de violão, gosto de Roberto Carlos, Caetano Veloso; mas por que está me fazendo essas perguntas, Dr. Geraldo? O que isso tem a ver com o meu tratamento?” Parece até que estou agora ouvindo a voz dela, o timbre de sua voz permanece até hoje nos meus ouvidos.

Eu disse: “é que eu toco violão, dona Marta, posso trazer amanhã para tocar para a senhora?” Ela me respondeu: “o senhor pode trazer seu violão, mas não vai servir de nada”.

Eis a força estranha. No dia seguinte, sob o consentimento do hospital, da preceptoria da residência, levei o violão e toquei algumas músicas para dona Marta: “Como é grande o meu amor por você” (de Roberto e Erasmo), “Sampa” (de Caetano Veloso) e “Força estranha”. Acho que ainda toquei mais umas duas músicas das quais não me recordo agora.

Ela ouviu as músicas em profundo silêncio, mas concentrada – eu percebi. Ao final das músicas, anunciei que estaria encerrando e ela me deu um dos presentes mais maravilhosos que eu já recebi na minha rotina de vivências médicas: um largo sorriso! Poucos dias depois, ela teve alta.

Dona Marta estabilizou do seu episódio depressivo com a ajuda dos medicamentos, da equipe multiprofissional do hospital, das minhas intervenções, mas também de algo além disso, que permeou naqueles dias a nossa relação. 

Tempos depois, ela me presenteou com um bordado extremamente bem feito: uma toalha com o meu nome e com um violão.

Obrigado, dona Marta, por ter aprendido tanto com a senhora, por ter tido a oportunidade de ter participado da sua vida e por poder, ainda hoje, passados 7 anos dessa história, ainda me lembrar, com a mesma carga de emoção, de com a sensibilidade é importante nas nossas vidas.

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