Especialistas alertam que, quando a perda acontece de forma traumática, os efeitos emocionais podem ser mais profundos. Foto: Reprodução

Especialistas alertam que, quando a perda acontece de forma traumática, os efeitos emocionais podem ser mais profundos. Foto: Reprodução

Cotidiano

Profissionais Luto na infância e adolescência exige preparo para prevenir impactos na saúde mental

Especialistas alertam que perdas traumáticas podem desencadear ansiedade, depressão e dificuldades de desenvolvimento; curso no RN busca capacitar profissionais que atuam com jovens

por: NOVO Notícias

Publicado 16 de março de 2026 às 20:30

O luto na infância e na adolescência tem se tornado um tema cada vez mais presente no debate sobre saúde mental. Em um país marcado por altos índices de mortes por causas externas — como violência, acidentes e suicídios — cresce também o número de crianças e adolescentes que enfrentam perdas significativas ainda nas primeiras fases da vida. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o Brasil registrou mais de 47 mil mortes violentas intencionais em 2023, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024, realidade que impacta diretamente milhares de famílias e comunidades.

Especialistas alertam que, quando a perda acontece de forma abrupta ou traumática, os efeitos emocionais podem ser ainda mais profundos. Diferentemente dos adultos, crianças e adolescentes nem sempre conseguem expressar o sofrimento de maneira clara. O luto pode aparecer por meio de mudanças de comportamento, dificuldades escolares, irritabilidade, isolamento social ou sintomas relacionados à ansiedade e à depressão.

De acordo com a psicóloga Kátia Bezerra, especialista em luto, compreender as particularidades do luto infantil é fundamental para que o sofrimento não seja invisibilizado.

“Durante muito tempo se acreditou que crianças não compreendiam plenamente a morte ou que superariam rapidamente uma perda. Hoje sabemos que o luto infantil existe e pode se manifestar de várias formas. Por isso, profissionais que convivem com crianças e adolescentes precisam estar preparados para reconhecer esses sinais e oferecer um acolhimento adequado”, afirma.

A psicóloga destaca que professores, orientadores educacionais, profissionais da saúde e assistentes sociais frequentemente estão entre os primeiros a perceber alterações no comportamento de jovens que enfrentam uma perda. “Muitas vezes a criança não consegue falar sobre o que está sentindo, mas demonstra isso por meio do comportamento. Quando o adulto não está preparado para interpretar esses sinais, existe o risco de que esse sofrimento se prolongue ou se transforme em outros problemas emocionais”, explica.

Estudos internacionais também apontam para a dimensão desse impacto. Levantamento da UNICEF indica que milhões de crianças em todo o mundo vivenciam anualmente a perda de familiares próximos, situação que pode interferir diretamente no desenvolvimento emocional, no desempenho escolar e na construção de vínculos afetivos.

Para a psicóloga Millena Câmara, perdas repentinas costumam gerar um processo de luto ainda mais complexo, exigindo atenção especializada.

“Quando uma perda acontece de forma inesperada — seja por violência, acidentes ou suicídio — o impacto emocional pode ser muito intenso. Crianças e adolescentes podem apresentar retraimento, alterações no comportamento ou quadros de ansiedade e depressão. O olhar atento dos profissionais é fundamental para identificar esses sinais e oferecer suporte”, explica.

Segundo ela, a forma como adultos e instituições lidam com o tema também influencia diretamente na elaboração do luto. “Quando o ambiente escolar ou familiar evita falar sobre a perda ou tenta minimizar o sofrimento, a criança pode se sentir ainda mais sozinha no processo. O acolhimento adequado ajuda a construir caminhos mais saudáveis para atravessar essa fase”, afirma.

Nesse cenário, cresce a necessidade de qualificação de profissionais que atuam no cotidiano de crianças e adolescentes. Escolas, universidades, serviços de saúde e instituições sociais são espaços onde muitas vezes os primeiros sinais de sofrimento aparecem.

A psicóloga Débora Sampaio ressalta que a preparação para lidar com o luto precisa ultrapassar o campo da psicologia clínica.

“Muitas vezes os primeiros sinais de sofrimento aparecem em ambientes como a escola ou a universidade. Por isso, educadores e profissionais da área educacional também precisam estar preparados para acolher e orientar crianças e adolescentes que enfrentam processos de perda”, afirma.

Segundo ela, o preparo adequado permite que esses profissionais saibam como abordar o tema, acolher emoções e encaminhar situações que necessitem de acompanhamento especializado. “O luto é um processo natural da vida, mas quando não encontra espaço para ser elaborado pode gerar impactos significativos na saúde mental. O papel dos profissionais é ajudar a construir caminhos para que essa experiência seja atravessada de forma mais saudável”, explica.

Curso debate tema com profissionais e estudantes de psicologia

Com o objetivo de ampliar esse debate e oferecer ferramentas práticas de atuação, o Núcleo Apego e Perdas promoverá o curso “Luto na infância e na adolescência”, voltado para profissionais e estudantes interessados na temática. A formação será realizada nos dias 18 e 25 de março, em formato online.

Durante o curso, serão discutidos temas como tipos de perdas, processos de luto, especificidades do luto infantil e adolescente, sinais de alerta para adoecimento psíquico e estratégias de cuidado e acompanhamento emocional.

Além de psicólogos, a formação é direcionada a profissionais da educação, da saúde e da assistência social, áreas que frequentemente lidam com situações de perda no cotidiano institucional. A proposta é ampliar o conhecimento técnico e oferecer instrumentos para que esses profissionais consigam reconhecer sinais de sofrimento emocional e oferecer suporte adequado.

Para os organizadores, discutir o luto na infância e na adolescência também significa olhar para o futuro. Experiências de perda não elaboradas podem impactar o desenvolvimento emocional e a construção de vínculos ao longo da vida.

A iniciativa integra as atividades do Núcleo Apego e Perdas, grupo dedicado ao estudo e à prática clínica voltados à compreensão das relações entre vínculos afetivos, perdas e processos de luto.

O curso oferece certificação aos participantes e prevê também 40% de desconto para profissionais que atuam em instituições públicas e filantrópicas, como forma de ampliar o acesso à formação e fortalecer redes de cuidado voltadas à saúde mental de crianças e adolescentes. As inscrições podem ser realizadas pelo site do núcleo, no endereço www.apegoeperdas.com, ou por meio do perfil no Instagram @apegoeperdas, onde também estão disponíveis informações sobre a programação e o processo de inscrição.

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