Transtornos mentais em profissionais de saúde: "Quem cuida de quem cuida?" - Freepik

Cotidiano

Alerta Transtornos mentais em profissionais de saúde: “Quem cuida de quem cuida?”

Crise silenciosa da saúde mental entre profissionais de saúde no RN expõe sobrecarga, subnotificação e falhas na rede de apoio

por: NOVO Notícias

Publicado 30 de março de 2026 às 16:00

Os afastamentos do trabalho por transtornos mentais no Rio Grande do Norte cresceram 64% em dois anos, segundo dados do INSS. O aumento ocorre em um cenário nacional em que a saúde mental se tornou a principal preocupação dos brasileiros — citada por 52% da população, segundo pesquisa Ipsos, superando inclusive o câncer.

No início de março, três profissionais da saúde no estado — um dentista e dois enfermeiros — cometaram suicídio em um único fim de semana. A sequência de perdas abalou colegas de profissão e trouxe à tona uma pergunta urgente: quem cuida de quem cuida?

Mais do que números, os episódios revelam o esgotamento físico e emocional de uma categoria que sustenta o funcionamento do sistema público e privado de saúde e que, paradoxalmente, enfrenta dificuldades para acessar cuidado. Especialistas, entidades de classe e representantes sindicais ouvidos pela reportagem apontam que a crise não é pontual. Ela vem se consolidando ao longo dos últimos anos, especialmente após a pandemia. “O sistema feito para cuidar está adoecendo seus próprios cuidadores”, resume um dirigente sindical ouvido pela reportagem.

Entre profissionais de enfermagem — categoria que representa a maior força de trabalho da saúde — a sobrecarga aparece como principal fator de adoecimento. Segundo o presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Rio Grande do Norte (Coren RN), Manoel Egídio, embora não exista ainda um sistema estruturado de monitoramento dos afastamentos por transtornos mentais na categoria, as queixas recebidas pelo conselho apontam um cenário preocupante.

As demandas mais frequentes envolvem déficit de pessoal, pressão assistencial elevada, jornadas extensas, falta de insumos, condições precárias de trabalho e exigência de produtividade incompatível com a estrutura disponível. “Muitas vezes os serviços querem exigir assistência de qualidade mesmo diante do número insuficiente de trabalhadores e das condições precárias de trabalho”, afirma. A consequência é previsível: adoecimento crescente e afastamentos cada vez mais frequentes.

Apesar do fim da emergência sanitária da Covid-19, seus efeitos continuam presentes na saúde mental dos trabalhadores. Segundo o Coren RN, o período deixou marcas profundas na categoria. “Muitos profissionais perderam colegas e familiares, outros adoeceram gravemente e conviveram com medo constante. Houve reconhecimento simbólico naquele momento, mas na prática pouca coisa mudou nas condições de trabalho”, afirma Manoel Egídio.

A ampliação de serviços durante a pandemia também deixou uma herança estrutural: unidades maiores, com maior demanda, mas sem manutenção proporcional do número de profissionais. O resultado foi um aumento permanente da pressão assistencial. A necessidade de manter mais de um vínculo empregatício é apontada como um dos fatores centrais de desgaste emocional. Baixos salários e vínculos precários obrigam muitos trabalhadores a assumir jornadas extensas, frequentemente conciliando plantões em diferentes instituições. Segundo o Coren RN, a situação é ainda mais sensível entre mulheres — maioria na enfermagem — que acumulam responsabilidades familiares além da atividade profissional.

“O profissional permanece se submetendo a duplas e triplas jornadas para garantir o mínimo de dignidade”, afirma o presidente do conselho.

Adoecimento silencioso e subnotificado

Para o Sindicato dos Trabalhadores em Saúde do RN (Sindsaúde RN), o crescimento do sofrimento mental entre servidores é evidente, mas ainda pouco mensurado oficialmente. O diretor do sindicato, João Assunção, afirma que a entidade solicitou dados à Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap), mas ainda não recebeu retorno.

Segundo ele, existe um obstáculo adicional: o estigma. “Muitos profissionais sofrem calados, com medo de serem tratados como ‘loucos’. Quando procuram ajuda, os casos acabam subnotificados”, afirma. Outro problema é que afastamentos raramente aparecem registrados formalmente como transtornos mentais. Na maioria das vezes, surgem como sintomas físicos associados: insônia, cefaleia, crises gastrointestinais, ansiedade e exaustão.

“Tragédias anunciadas”, diz sindicato

Na avaliação do Sindsaúde RN, os episódios recentes não foram inesperados. “Esses casos refletem um quadro mais amplo. São tragédias anunciadas”, afirma João Assunção. Entre os fatores apontados como determinantes para o agravamento da saúde mental dos trabalhadores estão falta de valorização profissional, sobrecarga assistencial, déficit de pessoal, ausência de insumos, acúmulo de vínculos e assédio moral. Segundo o sindicato, todas as categorias da saúde são afetadas, mas aquelas que permanecem na linha de frente da assistência sofrem impacto maior.

Para o psiquiatra Emerson Arcoverde, do Hospital Universitário Onofre Lopes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a vulnerabilidade dos profissionais de saúde está ligada à própria natureza da atividade. “Lidar diariamente com sofrimento humano já é um fator de desgaste importante. Quando isso se soma a excesso de trabalho e sono prejudicado, o risco de adoecimento aumenta significativamente”, explica.

Segundo ele, existe ainda outro fator invisível: a formação profissional. “Profissionais de saúde são treinados para avaliar a realidade dos pacientes com precisão, mas não são preparados para avaliar a própria realidade emocional.” Essa dificuldade contribui para atrasar a busca por ajuda. Embora o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais no RN (64%) tenha sido inferior à média do Nordeste (94%), isso não significa necessariamente uma situação melhor. Pode indicar o contrário.

Segundo Emerson Arcoverde, dois fatores explicam esse cenário: dificuldade de acesso ao diagnóstico e redução da oferta de serviços especializados. “Se não temos serviços suficientes, não conseguimos diagnosticar nem notificar adequadamente”, afirma. Ele destaca ainda que Natal perdeu leitos psiquiátricos desde a pandemia sem ampliação proporcional da rede extra hospitalar. O resultado é aumento da desassistência.

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