"O ex-presidente Jair Messias Bolsonaro é responsável por essa quadrilha que acabou com o estado do Rio de Janeiro", afirma Otoni de Paula. Foto: Anderson Riedel/PR

"O ex-presidente Jair Messias Bolsonaro é responsável por essa quadrilha que acabou com o estado do Rio de Janeiro", afirma Otoni de Paula. Foto: Anderson Riedel/PR

Política

De direita “Quem vota contra [acabar com] a escala 6×1 e ainda diz que defende a família, que família é essa?”, questiona ex-bolsonarista

“Infelizmente, a direita brasileira resolveu ser um espectro político que defende a elite. A direita perdeu a conexão com o povo”, afirma Otoni de Paula. Na sua visão, a medida “não vai quebrar o Brasil” e trará mais tempo para o convívio familiar

por: Mariana Schreiber Role, da BBC News Brasil em Brasília

Publicado 23 de abril de 2026 às 20:30

Declaradamente de direita e bolsonarista arrependido, o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) tem chamado atenção por críticas abertas a seu campo político. Em entrevista à BBC News Brasil, ele ataca os que têm se colocado contra o fim da escala de trabalho 6×1 no Congresso, por exemplo.

“Infelizmente, a direita brasileira resolveu ser um espectro político que defende a elite. A direita perdeu a conexão com o povo”, afirma. Na sua visão, a medida “não vai quebrar o Brasil” e trará mais tempo para o convívio familiar.

“Quem vota contra [acabar com] a escala 6×1 e ainda diz que defende a família, que família é essa? Ou seja, dá as costas ao trabalhador”.

Em outra discordância recente com seu campo político, condenou, em outubro, a megaoperação policial que deixou mais de 100 mortos em duas comunidades do Rio de Janeiro, evento que ampliou o apoio ao então governador Cláudio Castro (PL), agora condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por desviar recursos da máquina pública para bancar cabos eleitorais em 2022.

Para Otoni, a operação não passou de “teatro” para distrair a opinião pública e encobrir conexões entre facções criminosas e autoridades fluminenses.

Na sua visão, o Rio de Janeiro já se tornou um “narcoestado” onde “não se tem mais pudor de roubar”, e a família Bolsonaro teria responsabilidade direta pela atual crise, já que apoiou os últimos dois governadores eleitos — além de Castro, recém-condenado pelo TSE, Wilson Witzel, que sofreu impeachment em 2021, acusado de corrupção.

“Eu não tenho dúvida nenhuma de que Flávio Bolsonaro faz parte dessa quadrilha. E o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro é responsável por essa quadrilha que acabou com o estado do Rio de Janeiro”, critica. “Eu votei no Wilson Witzel porque ele pediu. Eu votei no Cláudio Castro porque ele pediu. E em nenhum momento o ex-presidente Bolsonaro veio a público para admitir sequer que errou”, reforça.

Otoni diz ainda que “seria até digno a família Bolsonaro não se meter mais nas eleições do Rio, porque eles só apresentam ladrão”. Esse cenário, diz, é que o leva a apoiar o ex-prefeito carioca, Eduardo Paes (PSD), ao governo do Rio, no que trata como um alinhamento inesperado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sua aliança, porém, vem de antes, quando apoiou a reeleição de Paes como prefeito e obteve a nomeação de seu filho, Otoni de Paula Filho, como secretário municipal da Cidadania e Família.

Já na disputa do Palácio do Planalto, mantém seu desejo por um governo de direita e apoia o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), apesar de discordar de sua promessa por ampla anistia para os condenados por golpe de Estado.

Procurado pela BBC News Brasil por meio de sua assessoria, Flávio Bolsonaro não respondeu às acusações de Otoni contra si e seu pai. A reportagem também não obteve retorno da assessoria de Cláudio Castro.

Já o ex-governador Wilson Witzel disse que Otoni se tornou o principal articulador de sua perseguição depois que recusou nomear “nomes absurdos” indicados por ele para comandar secretarias, delegacias e batalhões de polícia na sua gestão.

“Sabotou meu governo, minou minha relação com o presidente Bolsonaro e foi o responsável por colocar Castro na cadeira de governador”, acusou. “Hoje finge ser oposição, quando sempre foi governo. Otoni é uma serpente, tal qual seu chefe, Eduardo Paes. Traiu a igreja, traiu o eleitor, traiu Bolsonaro e, não demora, vai trair Lula”, continuou.

Parlamentar evangélico, ele também defende o papel dos pastores no combate ao machismo e à cultura do estupro. “A igreja peca quando não debate esse assunto, e já há comprovações de que uma parte considerável das mulheres violentadas está em nossas igrejas. E, quem as violentou, uma parte são aqueles que se dizem de Deus, que defendem a família, que são cristãos”, diz o deputado.

Leia os principais trechos da entrevista.

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