Venezuela abriga as maiores reservas de petróleo do mundo, mas produz hoje muito abaixo do seu potencial. | Foto: Getty Images
O petróleo da Venezuela voltou ao centro do tabuleiro internacional após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicando que o país pretende assumir o controle das reservas venezuelanas e atrair empresas americanas para investir bilhões de dólares na recuperação da indústria petrolífera local.
A movimentação tem uma explicação clara: a Venezuela detém a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, com cerca de 303 bilhões de barris, o equivalente a aproximadamente um quinto de todo o petróleo global, segundo dados da Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA).
Apesar desse potencial, o país produz hoje apenas cerca de 1 milhão de barris por dia, o que representa menos de 1% da produção mundial e uma queda acentuada em relação aos níveis anteriores à chegada de Nicolás Maduro ao poder, em 2013.
A baixa produção não ocorre por falta de petróleo, mas por problemas estruturais profundos. A estatal PDVSA afirma que parte da infraestrutura de oleodutos não passa por modernização há cerca de 50 anos. Para recuperar a capacidade máxima de produção, o investimento necessário seria de US$ 58 bilhões.
Mesmo que as restrições internacionais fossem totalmente suspensas, especialistas avaliam que levaria anos para a produção venezuelana voltar a níveis relevantes no mercado global.
Durante entrevista em Mar-a-Lago, Trump afirmou que empresas petrolíferas americanas seriam chamadas para liderar esse processo. “Vamos fazer com que nossas gigantescas companhias petrolíferas dos Estados Unidos entrem em cena, gastem bilhões de dólares e consertem a infraestrutura petrolífera, que está em péssimo estado”, declarou.
Segundo o presidente, os Estados Unidos assumiriam temporariamente a administração do governo venezuelano, enquanto a indústria energética seria reestruturada.
No curto prazo, o impacto nos preços é incerto. Os mercados futuros de petróleo não operam aos fins de semana, e analistas avaliam que qualquer reação inicial deve ser limitada.
Atualmente, os preços seguem pressionados por uma combinação de excesso de oferta e demanda mais fraca, em meio a uma economia global ainda afetada pela inflação pós-pandemia. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) aumentou a produção, enquanto o consumo desacelerou.
O petróleo americano chegou a ultrapassar US$ 60 por barril quando os EUA começaram a confiscar cargas venezuelanas, mas voltou a recuar para a casa dos US$ 57.
O tipo de petróleo encontrado na Venezuela é pesado e ácido, o que exige tecnologia avançada e refinarias específicas. Esse petróleo é fundamental para a produção de diesel, asfalto e combustíveis industriais, segmentos que enfrentam escassez global — em parte devido às sanções impostas à Venezuela.
Os Estados Unidos, maior produtor mundial de petróleo, extraem majoritariamente petróleo leve e doce, mais adequado para gasolina. Já muitas refinarias americanas foram projetadas justamente para processar o petróleo pesado venezuelano, operando com maior eficiência quando utilizam esse tipo de matéria-prima.
Para analistas do mercado, a reestruturação da indústria venezuelana poderia ter impacto histórico no longo prazo, mas não imediato. “Psicologicamente, isso pode dar um pequeno impulso, mas a Venezuela tem petróleo que pode ser facilmente substituído por outros produtores globais”, avaliou o analista Phil Flynn.
Bob McNally, da consultoria Rapidan Energy Group, também projeta efeito limitado no curto prazo. “A menos que haja sinais de instabilidade social ou caos, o impacto nos preços tende a ser modesto”, afirmou.
Segundo ele, o grande desafio será a velocidade de recuperação da produção. “A Venezuela pode se tornar muito importante, mas não nos próximos cinco a dez anos.”
Os mercados de petróleo reabrem neste domingo à noite. O comportamento dos preços dependerá da confiança dos investidores na capacidade dos Estados Unidos de, de fato, reconstruir o setor energético venezuelano.
Para a analista Helima Croft, da RBC Capital Markets, ainda é cedo para conclusões. “Precisamos de muito mais detalhes antes de declarar qualquer tipo de ‘missão cumprida’”, afirmou.
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