Crises de desregulação emocional podem ser um sinal de alerta, mas, isoladamente, não definem um diagnóstico. A avaliação especializada é fundamental.

Cotidiano

Mente Muito além do rótulo: diagnóstico precoce transforma o futuro de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento

Especialistas alertam que sinais como desatenção, atraso na fala e dificuldades de aprendizagem nem sempre indicam autismo ou TDAH e defendem uma avaliação multidisciplinar para um diagnóstico preciso

por: NOVO Notícias

Publicado 22 de junho de 2026 às 16:36

Desatenção, agitação, atraso na fala, dificuldades de aprendizagem ou problemas de interação social. Embora esses sinais sejam frequentemente associados ao autismo ou ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), especialistas alertam que eles podem indicar uma série de outros transtornos do neurodesenvolvimento. O diagnóstico correto exige investigação cuidadosa, equipe multidisciplinar e um olhar atento para evitar equívocos que podem comprometer o desenvolvimento da criança.

As primeiras suspeitas costumam surgir na escola. A criança demora para concluir atividades, não consegue acompanhar o ritmo da turma, apresenta dificuldades de concentração ou demonstra comportamentos considerados inadequados para a idade. Em casa, pais e responsáveis também percebem diferenças, mas muitas vezes acreditam que se trata apenas de uma fase ou de um traço da personalidade.

É justamente nesse momento que mora um dos maiores riscos: transformar comportamentos em diagnósticos precipitados. Segundo a neuropediatra Celina Reis, presidente da ABENEPI-RN (Associação Brasileira de Neurologia, Psiquiatria Infantil e Profissões Afins do Rio Grande do Norte), comportamento é apenas um sinal de alerta. “A criança não chega ao consultório dizendo que tem um atraso no desenvolvimento. Ela demonstra isso por meio do comportamento. Cabe ao profissional investigar o que está por trás desses sinais.”

A especialista explica que a investigação deve considerar toda a trajetória do desenvolvimento infantil. Marcos motores, linguagem, interação social, aprendizagem, histórico familiar e condições de saúde precisam ser analisados antes de qualquer conclusão. “Muitas vezes, o comportamento é apenas um reflexo de uma dificuldade no desenvolvimento”, afirma.

O aumento das informações sobre autismo e TDAH trouxe avanços importantes para a identificação dessas condições. Ao mesmo tempo, especialistas observam um crescimento dos autodiagnósticos e da tendência de relacionar qualquer dificuldade escolar ou alteração de comportamento a esses transtornos.

>> Receba notícias do NOVO em tempo real pelo WhatsApp

Na prática, os transtornos do neurodesenvolvimento abrangem um universo muito mais amplo. Além do Transtorno do Espectro Autista e do TDAH, fazem parte desse grupo os transtornos do desenvolvimento da linguagem, os transtornos específicos da aprendizagem, como dislexia e discalculia, o transtorno do desenvolvimento da coordenação motora e a deficiência intelectual. Muitos apresentam manifestações semelhantes, tornando indispensável o chamado diagnóstico diferencial.

Antes de confirmar qualquer transtorno, o profissional precisa excluir outras condições que podem provocar sintomas parecidos. Problemas de visão e audição, alterações do sono, deficiência de ferro, doenças respiratórias, uso excessivo de telas e até ansiedade ou depressão podem interferir na atenção, no comportamento e no aprendizado.

Um exemplo citado por Celina Reis é o da perda auditiva. Crianças que não escutam adequadamente podem parecer desatentas ou hiperativas. “Elas acreditam que ouvir daquela forma é normal, porque nunca experimentaram outra realidade. Só depois do diagnóstico percebem que existia uma limitação auditiva”, diz.

Outro ponto pouco conhecido é que não existe exame de sangue, tomografia ou ressonância capaz de confirmar a maioria dos transtornos do neurodesenvolvimento. O diagnóstico é clínico e resulta da observação do desenvolvimento da criança, das informações fornecidas pela família e pela escola e da avaliação de diferentes profissionais, seguindo critérios científicos internacionalmente reconhecidos.

Intervenção precoce muda trajetórias

Para a fonoaudióloga Cíntia Salgado, presidente do 28º Congresso Brasileiro da ABENEPI, que será realizado em outubro, em Natal, reunindo palestrantes nacionais e internacionais, nenhum profissional consegue construir esse diagnóstico sozinho.

“São necessárias informações da escola, da família e avaliações clínicas detalhadas. A integração entre diferentes áreas permite compreender a criança de forma completa e definir o melhor caminho para ela.”

Nesse processo, a escola ocupa papel estratégico. É no ambiente escolar que as exigências relacionadas à aprendizagem, à linguagem e à convivência social tornam mais evidentes as dificuldades da criança. Professores costumam ser os primeiros a perceber diferenças no desenvolvimento e podem orientar a família a buscar uma avaliação especializada.

Os especialistas fazem, porém, uma ressalva importante: o papel da escola não é diagnosticar, mas observar, registrar e encaminhar. Da mesma forma, pais e responsáveis devem evitar conclusões baseadas apenas em informações encontradas na internet.

A rapidez nesse encaminhamento faz toda a diferença. Os primeiros anos de vida representam o período de maior plasticidade cerebral, quando o cérebro responde melhor aos estímulos e às intervenções. Quanto mais cedo a criança recebe acompanhamento, maiores são as chances de desenvolver habilidades cognitivas, sociais, emocionais e de linguagem.

Segundo Celina Reis, existe uma diferença importante entre confirmar um diagnóstico e iniciar a intervenção. “Nem sempre conseguimos fechar o diagnóstico imediatamente. O problema não é concluir o diagnóstico depois; o problema é investigar tarde e começar a intervir quando a criança já perdeu oportunidades importantes de desenvolvimento.”

Mais do que dar um nome a determinada condição, o diagnóstico representa uma ferramenta de cuidado. É ele que orienta terapias, adaptações escolares, acesso aos direitos garantidos por lei e estratégias que permitem à criança desenvolver seu potencial.

A necessidade de atualização permanente dos profissionais estará em debate durante o 28º Congresso Brasileiro da ABENEPI, que acontece em outubro, em Natal. O encontro reunirá especialistas brasileiros e convidados internacionais para discutir os avanços científicos no diagnóstico e tratamento dos transtornos do neurodesenvolvimento, reforçando a importância da atuação interdisciplinar entre médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, pedagogos e outros profissionais envolvidos no cuidado de crianças e adolescentes.

Serviço: www.congressoabenepi2026.com.br/

Tags