Equipe formada por Jeel Moya-Salazar, Julia Nogueira, Maria Eduarda Araújo, Julio Rezende e Oscar O’Farill durante a missão análoga internacional MoonDAO 233 - Foto: Projeto Habitat Marte
Vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o projeto utiliza as condições do semiárido potiguar para simular desafios enfrentados em missões espaciais
Publicado 23 de abril de 2026 às 15:00
O Complexo Aeroespacial Habitat Marte, localizado no interior do Rio Grande do Norte, realizou, entre os dias 13 e 17 de abril, a missão análoga internacional MoonDAO 233, com a participação de integrantes do México, Peru e Brasil. Vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o projeto utiliza as condições do semiárido potiguar para simular desafios enfrentados em missões espaciais, como isolamento e limitação de recursos. Durante a missão, os participantes desenvolveram atividades de pesquisa, testaram tecnologias e realizaram simulações operacionais.
A equipe foi composta por cinco astronautas análogos: o comandante Jeel Möya Salazar, do Peru; o chefe de saúde mental Oscar Iván O’Farill Cobo, do México; a cientista-chefe Julia Bulhões, aluna de Física da UFRN; a chefe da estufa Maria Eduarda Araújo Tarissio; e o chefe executivo Julio Rezende, professor do Departamento de Engenharia de Produção (DEP/UFRN). A missão contou ainda com uma equipe de controle externo, formada pela oficial de bem-estar Natália Hazbun e pelo oficial de exercícios Gabriel Matheus.
Segundo o professor Julio Rezende, coordenador do Habitat Marte, as pesquisas na área da saúde tiveram papel central na missão, integrando monitoramento fisiológico, preparação física, bem-estar psicológico e protocolos de segurança em ambientes extremos. Entre os procedimentos realizados estão a medição de glicemia, aferição da pressão arterial, cálculo do índice de massa corporal (IMC), considerando peso, altura e circunferência da cintura, e o uso de oxímetro para acompanhamento da oxigenação dos participantes.
Ainda de acordo com o professor, esses dados permitem compreender como o organismo humano responde a condições como isolamento, calor intenso, restrição de recursos e estresse operacional, características presentes tanto no semiárido quanto em missões espaciais simuladas. Foram desenvolvidos também protocolos de primeiros socorros e gestão de emergências, contemplando desde atendimentos básicos até encaminhamentos para unidades externas, quando necessário.
Em complemento aos dados coletados, o professor da Facultad de Medicina da Universidad del Desarrollo, no Chile, Jeel Möya Salazar, que atuou como comandante da missão Jezero no Habitat Marte, destacou que foram identificadas alterações circadianas (relacionadas ao desalinhamento entre o relógio biológico interno e o ambiente externo), além de perda de massa corporal em poucos dias de confinamento. Segundo ele, os resultados representam um avanço relevante para a medicina espacial latino-americana.
A preparação física também integrou a programação, com exercícios adaptados a ambientes de espaço reduzido e recursos escassos, além de práticas como yoga, meditação e mindfulness, voltadas ao equilíbrio físico e mental dos participantes. A segurança e a adaptação ao ambiente também foram trabalhadas, com estudos sobre respostas a situações específicas – como picadas de animais peçonhentos – e o treinamento de técnicas de respiração e mergulho livre aplicadas em contextos simulados.
A dimensão psicológica recebeu atenção especial. Foram realizadas avaliações de resiliência, gestão emocional e estratégias de ocupação em momentos offline, aspectos considerados fundamentais em cenários de confinamento e desconexão digital. O monitoramento do consumo de água e da variação de peso dos participantes também compôs os estudos, contribuindo para análises sobre hidratação, metabolismo e adaptação fisiológica.
Além da saúde, a missão avançou em pesquisas na área de agricultura, consideradas estratégicas para a sustentabilidade em ambientes extremos. O Habitat Marte opera como laboratório para o desenvolvimento de soluções de produção alimentar em condições controladas, com foco na eficiência do uso de recursos e na segurança alimentar.
Entre as iniciativas, o professor Julio destaca estudos com sistemas de aquaponia, que integram cultivo de plantas e criação de peixes em circuitos fechados, além da análise da qualidade da água e da manutenção desses sistemas. Também são desenvolvidos protocolos de cultivo em ambientes fechados, levando em conta fatores como iluminação, controle climático e uso racional de água e nutrientes.
Outro ponto de destaque é a hortoterapia, prática que associa a produção agrícola ao bem-estar físico e psicológico dos participantes. As atividades abrangem desde o plantio até a colheita e o consumo dos alimentos, possibilitando a realização de ciclos produtivos completos em ambiente controlado. “As pesquisas desenvolvidas no Habitat Marte contribuem para o avanço de soluções inovadoras em agricultura sustentável, com potencial de aplicação tanto em missões espaciais quanto em regiões terrestres com limitações ambientais, reforçando a convergência entre tecnologia, sustentabilidade e segurança alimentar”, concluiu Julio Rezende.
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