Quando o diretor do Instituto Max Planck, em Heidelberg, anunciou antes de um seminário que o pesquisador brasileiro que subiria ao palco era o mais novo vencedor do Prêmio Friedrich Wilhelm Bessel 2025, o nome da Universidade Federal do Rio Grande do Norte ecoou na plateia alemã. Para o professor doutor Farinaldo da Silva Queiroz, do Departamento de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a notícia veio como surpresa — e como símbolo de uma trajetória construída entre desafios pessoais, produção científica de alto impacto e cooperação internacional.
Concedido a cerca de 20 cientistas por ano, em todas as áreas do conhecimento, o Prêmio Friedrich Wilhelm Bessel reconhece pesquisadores com projeção internacional e contribuições relevantes para a ciência. “É uma conquista muito grande. A vida de pesquisador é pouquíssimo valorizada no Brasil e, muitas vezes, desconhecida. Receber esse reconhecimento internacional motiva bastante”, afirma.
Para Farinaldo, o prêmio não é apenas uma conquista individual. Ele reforça que o reconhecimento coloca a UFRN e a ciência produzida no Nordeste no centro das grandes discussões científicas globais.
“Mostra que a pesquisa desenvolvida na UFRN está inserida nas grandes discussões científicas. Isso amplia a visibilidade da universidade, atrai novas colaborações e cria oportunidades para estudantes e jovens pesquisadores participarem de projetos de fronteira”, explica. O resultado direto é a ampliação do acesso a recursos e a redes internacionais de pesquisa.
O professor desenvolve estudos na área de matéria escura e física além do Modelo Padrão — um dos campos mais instigantes da física contemporânea.
O que é a matéria escura — e por que ela é tão importante?
No ensino médio, aprendemos que tudo é feito de prótons, nêutrons e elétrons. Mas essa explicação cobre apenas uma pequena parte do Universo. Segundo o pesquisador, a maior parte da matéria existente não é composta por átomos, mas por algo ainda desconhecido: a chamada matéria escura.
Ela representa cerca de 85% de toda a matéria do Universo e foi fundamental para a formação das galáxias, estrelas e planetas. “Sem a matéria escura no início do universo, não estaríamos aqui hoje”, resume.
Apesar de invisível, seus efeitos gravitacionais são observáveis. O grande desafio da física moderna é descobrir do que ela é feita.
Modelos teóricos e dados reais
O trabalho de Farinaldo está na fronteira entre teoria e experimento. Seus modelos teóricos são desenvolvidos para serem testados com dados reais obtidos em grandes experimentos internacionais, como detectores subterrâneos, observatórios de ondas gravitacionais e colisores de partículas.
A comparação entre previsões teóricas e dados experimentais é o que pode levar à identificação de novas partículas — possíveis candidatas à matéria escura. “A natureza costuma trazer surpresas”, diz ele, lembrando que a detecção das ondas gravitacionais e a descoberta do bóson de Higgs também foram consideradas improváveis no passado.
Agora, como parte do prêmio, o professor desenvolverá pesquisas no Max Planck Institute for Nuclear Physics, em parceria com o físico alemão Manfred Lindner. Lá, terá acesso a dados de experimentos localizados a cerca de 3 mil quilômetros de profundidade, além de análises envolvendo ondas gravitacionais.
Cooperação internacional: o Brasil no CERN
A pesquisa em física de partículas é, por natureza, colaborativa e global. O Brasil integra grandes projetos internacionais e participa ativamente do CERN, o maior laboratório europeu de física de partículas. O país atua nos quatro principais detectores da instituição — ALICE, LHCb, ATLAS e CMS — e tornou-se membro associado do centro.
A UFRN mantém acordo formal com o CERN, o que permite a estudantes e pesquisadores participarem de colaborações científicas e utilizarem dados experimentais de ponta. “Temos estudantes da UFRN envolvidos em pesquisas em cooperação com o CERN. Isso é extremamente significativo”, destaca.
Para ele, a história da física brasileira mostra que o país sempre teve nomes relevantes na área e continua competitivo em pesquisas de ponta, apesar das incertezas de financiamento.
Da escola pública ao reconhecimento internacional
A trajetória de Farinaldo começou em escola pública. Filho de família humilde, quase abandonou o curso antes do quarto período da graduação por pressão financeira. A virada veio com uma bolsa de estudos, que permitiu dedicação exclusiva à universidade.
“Se não houvesse um programa de bolsas, eu não estaria aqui hoje”, reconhece. O interesse pela Física surgiu no primeiro ano do ensino médio, no Lyceu Paraibano, em João Pessoa, impulsionado por um professor que despertou sua curiosidade científica. Entre Medicina, Computação e outras possibilidades, escolheu a Física. “Na Física, a opinião não importa. Os dados revelam a forma correta”, afirma.
A jovens que sonham seguir carreira científica, ele aconselha: não basear decisões nas oscilações políticas ou de financiamento, mas naquilo que traz realização. “A carreira acadêmica é desafiadora, exige dedicação por muitos anos, mas é empolgante e gratificante.”
O protagonismo da Física na UFRN
O reconhecimento internacional também lança luz sobre a consolidação do Departamento de Física da UFRN como polo de excelência. Segundo Farinaldo, esse protagonismo é resultado de décadas de trabalho coletivo.
A interação entre o Departamento de Física, a Escola de Ciência e Tecnologia, o Instituto Metrópole Digital e o Instituto Internacional de Física fortaleceu a internacionalização da universidade. O Instituto Internacional de Física, em especial, ampliou o intercâmbio científico ao trazer centenas de pesquisadores estrangeiros ao estado, consolidando a UFRN como referência no cenário global.
A expectativa, agora, é que a nova etapa na Alemanha aprofunde técnicas capazes de revelar pistas sobre a composição da matéria escura — uma descoberta que pode transformar a compreensão humana sobre o Universo.
Enquanto isso, do Rio Grande do Norte para Heidelberg, a trajetória de Farinaldo Queiroz simboliza algo maior: a prova de que a ciência feita no Nordeste brasileiro está conectada às perguntas mais profundas da humanidade — e pode ajudar a respondê-las.
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