“Vivemos uma rotina de cuidados aqui em casa, mas é importante dizer também que a criança traqueostomizada pode ter uma vida normal”, relata a dona de casa potiguar Aline Magalhães da Silva, mãe de Ana Lívia, de um ano e dez meses, que passou pelo procedimento quando tinha três meses. Promover a conscientização a respeito do assunto é o objetivo do Dia Nacional da Criança Traqueostomizada, celebrado em 18 de fevereiro. Os especialistas da Rede Ebserh destacam a importância do cuidado especializado para um tratamento eficaz e com mais qualidade de vida para os pequenos pacientes e seus familiares.
Acompanhada pela equipe assistencial da Maternidade Escola Januário Cicco, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (MEJC-UFRN), em Natal, Ana Lívia nasceu com 29 semanas, considerada prematura extrema. Em virtude desse quadro de saúde, ela foi entubada e, por causa dos pulmões imaturos, precisou fazer a traqueostomia, explica a mãe. Após oito meses de internamento, Aline e Ana Lívia foram para casa. A rotina conta com nebulizações, aspirações de secreções (quando necessário), além do uso de medicações, limpeza e troca da fixação.
“Minha filha é um verdadeiro milagre de Deus. Graças à fisioterapia respiratória, ela conseguiu sair da ventilação mecânica e, hoje em dia, está com a traqueostomia ocluída (parcialmente bloqueada). Agora estamos no ‘desmame’ para, em breve, poder fazer a tão sonhada retirada da cânula”, relata Aline.
Bellisa Caldas, cirurgiã pediátrica da MEJC-UFRN, destaca que a traqueostomia em recém-nascidos, sobretudo em prematuros, é mais desafiadora do ponto de vista técnico. “Pelo menor calibre da traqueia, pequenas obstruções podem causar grandes repercussões nesses pacientes. Para se ter ideia, a traqueia de um recém-nascido a termo (nascido entre 37 e 41 semanas e 6 dias de gestação), tem em torno de 7mm, enquanto a do prematuro tem cerca de 5mm”, contextualiza a especialista. O trabalho integrado de pediatras, cirurgiões pediátricos, otorrinolaringologistas, cirurgiões torácicos, fonoaudiólogos e enfermeiros especializados é fundamental.
Visibilidade
Os cuidados com a criança traqueostomizada exigem uma atenção maior e específica dos pais e dos profissionais de saúde. “Essa data tem o objetivo de dar maior visibilidade a essa causa e reforçar a importância desse cuidado. Essa é uma luta antiga e que a cada ano ganha mais força, com mais ações de conscientização pelo Brasil”, destaca a otorrinolaringologista pediátrica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC-UFG), Melissa Avelino, que lançou essa iniciativa em 2016, quando presidia a Academia Brasileira de Otorrinolaringologia Pediátrica (ABOPe). A data virou lei nacional em 2021.
A traqueostomia é um procedimento cirúrgico que abre um orifício no pescoço (na altura da traqueia) para a passagem de uma cânula para a entrada do ar diretamente para os pulmões para permitir a respiração de pacientes que apresentam obstrução à passagem de ar na laringe causada por estenoses, traumas, tumores e/ou necessidade de ventilação mecânica prolongada ou toalete (higiene) pulmonar. Em casos mais graves, pode durar meses, anos ou ser definitiva para manutenção da vida de algumas crianças.
“Existem riscos de complicações. Por isso, é necessário o uso de um aspirador para remover a secreção e a troca regular do dispositivo da traqueostomia, por exemplo. A prevenção por meio de campanhas de orientação à população e, principalmente, aos profissionais de saúde é fundamental”, comenta Melissa Avelino.
Com a traqueostomia, situações do dia a dia passam a exigir maior atenção. “Os cuidadores devem estar sempre atentos e lavar as mãos antes de manusear o dispositivo da traqueostomia, manter a pele ao redor limpa e seca, aspirar com sonda estéril sem reutilizar materiais, fixar adequadamente o dispositivo com o cadarço, evitar que entre água durante o banho e não utilizar roupas que obstruam a cânula ou tecidos que soltem fios”, pontua a fonoaudióloga do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC-UFPE) Olímpia Ferreira.
A cirurgiã pediátrica e chefe da Unidade de Clínica Cirúrgica do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CH-UFRJ), Danielle Forny, explica que a traqueostomia em crianças é mais comum naquelas menores de um ano. “Especialmente em prematuros e crianças com doenças complexas de via aérea, quando há a necessidade da via alternativa à respiração por um tempo prolongado ou quando outras estratégias, como a intubação repetida, são inadequadas ou arriscadas”, afirma Forny.
A médica do CH-UFRJ informa como o SUS atua quanto a essas crianças. “Os pacientes são avaliados e tratados por especialistas como cirurgiões pediátricos e otorrinolaringologistas nas unidades hospitalares. O SUS fornece também insumos para o seguimento domiciliar, quando é possível a desospitalização do paciente”.
Bellisa Caldas, da MEJC-UFRN, lembra que a prevenção da traqueostomia e o correto manejo da via aérea pediátrica tem evoluído graças a um maior investimento na formação dos novos cirurgiões pediátricos e torácicos. “Sempre que possível, fazemos a avaliação endoscópica da via aérea antes da traqueostomia para melhorar essa análise”, afirma.
Adaptação e reabilitação
A fonoaudióloga do HC-UFPE Olímpia Ferreira ressalta que, após a traqueostomia, o paciente necessita de adaptações e reabilitação. “Trabalhamos para reabilitar a alimentação por via oral, com ajustes posturais, adequação da consistência dos alimentos e controle do volume por porção, além da adaptação da fala. Em alguns casos, adaptamos a válvula de fala e deglutição, que auxilia no processo terapêutico de forma segura para o paciente”, comenta.
A profissional finaliza dizendo que, nos quadros mais graves, é necessária a utilização de uma via alternativa de alimentação, “para prevenir broncoaspiração e desnutrição”. Para auxiliar na comunicação, “há recursos alternativos, como pranchas e dispositivos eletrônicos”.
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