Foto: Prefeitura de Natal/Divulgação

Cotidiano

Obra Engorda de Ponta Negra completa um ano e resiste a marés 30% mais fortes

Testada por eventos extremos, obra confirma função ambiental, amplia uso da praia e impulsiona turismo

por: Alessandra Bernardo

Publicado 2 de fevereiro de 2026 às 15:30

Um ano após a entrega oficial das obras de engordamento da faixa de areia da praia de Ponta Negra, na zona Sul de Natal, a intervenção já passou por seu teste mais rigoroso. Desde a conclusão do projeto, a orla enfrentou marés até 30% mais fortes do que aquelas que, antes da obra, provocaram erosão severa e levaram o município a decretar estado de emergência. De acordo com a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semurb), o comportamento da praia após esses eventos confirma que o principal objetivo do projeto — conter a erosão costeira — vem sendo cumprido.

O secretário da Semurb, Thiago Mesquita, explicou que a engorda foi concebida, desde a fase de planejamento, como uma intervenção de resiliência ambiental, e não apenas como uma obra de caráter paisagístico ou turístico. Segundo ele, ao longo de pouco mais de uma década, Ponta Negra perdeu praticamente toda a sua faixa natural de areia. “Perdemos completamente a areia praial ao longo dos quatro quilômetros da orla de Ponta Negra. O principal objetivo que motivou todo esse investimento foi combater a erosão costeira, e esse objetivo vem sendo alcançado”, afirmou.

Ele relembrou que, em setembro de 2024, antes da conclusão da engorda, Natal enfrentou uma das maiores marés já registradas. “A força do mar provocou o colapso de trechos da linha de costa, danificou estruturas urbanas e levou o município a decretar estado de emergência. A dinâmica costeira foi tão intensa que dissipadores de energia, equipamentos que pesam toneladas, chegaram a ser deslocados. Aquela maré gerou um cenário crítico”, destacou.

Após a implantação da engorda, o cenário foi diferente. Nos meses de julho e agosto do ano seguinte, Natal voltou a enfrentar marés ainda mais intensas — cerca de 30% superiores às de 2024. “Enquanto municípios do litoral norte, como Macau e Touros, registraram impactos significativos, em Ponta Negra os efeitos foram mínimos. Na área próxima ao Morro do Careca, a maré avançou um pouco, formou uma poça d’água e, em menos de duas horas, o material já havia infiltrado. Foi o único registro”, relatou.
Para o secretário, o episódio confirma a função da engorda como um anteparo natural. “Ela funciona como uma estrutura de proteção em areia, capaz de resistir à dinâmica costeira e preservar a linha de costa do município de Natal”, afirmou.

Além da função ambiental, a obra trouxe reflexos diretos no uso da praia. Com a recomposição da faixa de areia, Ponta Negra voltou a ser plenamente acessível à população e aos turistas. “Antes, em determinados períodos, praticamente se caminhava dentro da água. Hoje, a praia pode ser utilizada ao longo de todo o dia”, observou Thiago Mesquita.

A ampliação do espaço permitiu o retorno de atividades esportivas, eventos culturais e grandes celebrações. Mesmo antes da conclusão total da obra, a praia sediou edições do Natal em Natal e festas consecutivas de Réveillon. A expectativa é que competições esportivas regionais e nacionais passem a integrar o calendário local.

No aspecto econômico, os reflexos também são perceptíveis. “Basta consultar a Fecomércio (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do RN) ou a ABIH (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do RN). Após a engorda, praticamente todos os feriados e períodos de alta temporada registraram recordes de ocupação hoteleira em Natal”, afirmou, destacando que a obra se consolidou como a principal novidade estrutural recente da cidade.

Período de adaptação e desafios técnicos

De acordo com o secretário, intervenções desse porte exigem um período natural de adaptação, estimado em até 24 meses, conforme previsto nos estudos técnicos. “Isso não é uma particularidade de Natal. Qualquer obra de engorda no mundo passa por esse processo até que a dinâmica costeira se estabilize”, explicou.

Entre os principais desafios observados no primeiro ano estão a coloração inicial da areia, mais escura devido à umidade do material retirado do fundo do mar; a presença de rodolitos, que exigiu limpeza mecanizada; a adaptação ao banho de mar, em razão da formação inicial de uma berma — um degrau natural de areia com cerca de três metros de altura, que atua como barreira contra a força das ondas —, além das questões de drenagem e do processo de urbanização, que segue em andamento.

Sobre a drenagem, ele foi direto: “Ela foi concluída um mês após a finalização da engorda, em fevereiro do ano passado, e funcionou perfeitamente. Circularam muitas informações falsas, mas os dados técnicos comprovam o funcionamento do sistema”.

Manutenção e próximos passos
O secretário reforçou que nenhuma obra de engenharia costeira é definitiva. “O oceano é dinâmico, vivo. Em cerca de 4,1 quilômetros a faixa está intacta, mas existem trechos mais sensíveis, entre 400 e 500 metros, especialmente próximos ao Morro do Careca”, explicou.

Segundo ele, a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra) conduz estudos para ações de manutenção preventiva, com o objetivo de ampliar a vida útil do aterro. “Sem manutenção, parte do material pode se perder ao longo dos anos. Com manutenção adequada, a vida útil é longa”, pontuou.

Para Thiago Mesquita, os resultados observados no primeiro ano confirmam a sustentabilidade do projeto. “A obra gera preservação ambiental, justiça social e eficiência econômica. Isso é sustentabilidade. O saldo é extremamente positivo para toda a sociedade”, concluiu.

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