Na Europa, Mestre Ozawa colaborou com um concerto e ministrou uma aula magna sobre a rabeca e suas manifestações culturais no Brasil. Foto: Divulgação

Na Europa, Mestre Ozawa colaborou com um concerto e ministrou uma aula magna sobre a rabeca e suas manifestações culturais no Brasil. Foto: Divulgação

Cultura

Talento Da periferia de Natal para o mundo: Mestre Ozawa leva a rabeca de Felipe Camarão à Finlândia

Ex-aluno e hoje professor da Escola de Saberes Conexão Felipe Camarão, o agora reconhecido Mestre Ozawa da Rabeca realizou sua primeira viagem internacional para se apresentar e ministrar uma masterclass na prestigiada Sibelius Academy, na Finlândia

por: NOVO Notícias

Publicado 2 de junho de 2026 às 20:30

Cria do bairro de Felipe Camarão, na Zona Oeste de Natal, o músico e luthier Ozawa Santos viveu um dos momentos mais marcantes de sua trajetória artística neste mês de maio. Ex-aluno e hoje professor da Escola de Saberes Conexão Felipe Camarão, o agora reconhecido Mestre Ozawa da Rabeca realizou sua primeira viagem internacional para se apresentar e ministrar uma masterclass na prestigiada Sibelius Academy, na Finlândia.

O elo que levou a música ancestral potiguar até a Europa começou a se desenhar em 2025. Durante um evento organizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a coordenação do departamento de Global Music da instituição finlandesa conheceu o projeto Conexão Felipe Camarão, através do professor Fábio Presgrave. Na ocasião, estudantes do mundo inteiro ministraram oficinas na comunidade, culminando em uma apresentação conjunta na Escola de Música da UFRN com alunos do Conexão, da Ilha de Música e do Atitude Cooperação.

O que chamou a atenção dos pesquisadores e professores estrangeiros foi justamente a metodologia de ensino do Conexão Felipe Camarão: a transmissão oral do conhecimento, que difere dos métodos tradicionais e conservadores das academias europeias. Alinhada com os conceitos de decolonialidade, a Sibelius Academy enxergou na vivência de Ozawa uma riqueza pedagógica singular.

O reconhecimento se transformou em um convite institucional oficial para que o rabequeiro potiguar participasse do Spring Festival da academia finlandesa. Na Europa, Mestre Ozawa colaborou com um concerto e ministrou uma aula magna sobre a rabeca e suas manifestações culturais no Brasil. Foram quase 15 dias de muita troca de experiência e intercâmbio de culturas.

“Acredito que essa oportunidade de estar na Finlândia mostra que a cultura, a música ancestral e a educação comunitária não têm fronteiras. Isso abre portas para um futuro próximo onde nossos mestres e tradições terão o seu importante saber sendo ensinado nas universidades de uma forma diferente dos padrões conservadores”, declara Mestre Ozawa da Rabeca.

Para o músico, ocupar um espaço de elite como a Sibelius Academy é um marco político e cultural. “A presença dos mestres e seus conhecimentos dentro da academia reforça o fato de que o popular não é inferior, mas que é tão importante quanto o erudito”, pontua.

O Ponto de Cultura Conexão Felipe Camarão atua na preservação, valorização e transmissão da cultura popular no bairro de Felipe Camarão, em Natal/RN. Ao transformar ex-alunos, como o próprio Mestre Ozawa, em multiplicadores e professores, o projeto reforça a identidade do território e prova que a tradição e a educação integral são ferramentas potentes de transformação global, partindo de cada território.

“Para nós do Conexão Felipe Camarão, ver a trajetória do Mestre Ozawa cruzar o oceano e chegar a uma das maiores academias de música do mundo é a maior validação do nosso propósito. No Conexão, nós não formamos apenas músicos para a técnica ou para o palco; nós formamos guardiões da nossa própria história. O nosso trabalho diário é fazer com que cada estudante olhe para o território de Felipe Camarão e reconheça a riqueza do patrimônio imaterial que nos cerca, seja no toque da rabeca, no boi, na capoeira ou na tradição oral dos nossos mestres. Quando o Ozawa pisa na Finlândia e ensina a tradição da rabeca a partir da oralidade, ele não está representando apenas a si mesmo, ele está levando a voz, a ancestralidade e a dignidade de toda a nossa comunidade”, declara Vera Santana, coordenadora geral do Conexão Felipe Camarão.

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