Hoje acordei com esse questionamento e busquei respostas nas estatísticas oficiais para me certificar, tecnicamente e com base sólida, de uma resposta para mim mesmo. Estou falando de filhos – ou melhor, da educação dos filhos.
Não é raro ouvir que a educação não tem preço, e hoje reconheço essa realidade diante de tantos sacrifícios, renúncias, “tira dali para pôr acolá”, enfim, malabarismos de quem tem apenas duas tampas para cobrir três garrafas. Com esse argumento simplório, que retomarei mais adiante, volto à educação.
Quem me conhece sabe que tenho três filhos. Hoje, todos graduados no ensino superior: Fisioterapia, Ciência da Computação e Ciências Sociais. Um deles já concluiu mestrado e doutorado, e os outros dois estão com o mestrado em curso, sendo que um ingressou no mestrado antes mesmo de colar grau como cientista social – motivo que reforça a reflexão a que me debruço.
Diante dessa realidade familiar, dados do Censo 2022 (PNAD/IBGE) apontam que apenas 13% dos jovens brasileiros conseguem concluir o ensino superior. Em se tratando de pós-graduação, esse percentual cai para entre 2% e 2,5%, e, no caso do doutorado, para menos de 1%, ficando entre 0,5% e 0,8%. Devemos considerar ainda que, na região Nordeste, esses percentuais são ligeiramente menores do que a média nacional.
Essa realidade significa que apenas cerca de 1 em cada 10 jovens nordestinos, entre 25 e 30 anos, consegue chegar ao ensino superior público. E, se falarmos de mestrado e doutorado, estamos tratando de uma elite educacional: cerca de 1 jovem em cada 100 com mestrado e 1 jovem em cada 300 a 500 com doutorado.
Analisando esse cenário nacional, dou-me conta de que a minha realidade acadêmica familiar não é apenas uma estatística satisfatória, mas também um projeto de vida de pais que souberam administrar apenas duas tampinhas para três garrafas. Um projeto construído com fé na educação como o caminho mais seguro para transformar destinos.
Hoje, ao me preparar para participar da solenidade de colação de grau do nosso último filho como cientista social, somos tomados pela sensação de dever cumprido, de caminhada reta, de coerência entre discurso e prática e, sobretudo, de muitos renascimentos.
Esse sentimento que nos toma, a nós, pais, faz brotar lágrimas nos olhos e nos gratifica por saber que todo o esforço não foi em vão. Como pai e mãe, como cidadãos, contribuímos para formar pessoas mais qualificadas, que prestarão melhores serviços à sociedade. E, como seres humanos, acreditamos deixar um legado que ultrapassará gerações, com a consciência tranquila de que cada esforço valeu a pena.
Permanece ainda nítida em minha memória a metáfora das duas tampas para três garrafas, tantas vezes utilizada na direção da antiga escola CELM Zona Sul (Centro Educacional Libânia Medeiros), em Nova Parnamirim, ao tentar sensibilizar o professor Carlos Bola (diretor/sócio) para obter descontos de 50% e até 100% na mensalidade de um dos filhos, garantindo que o trio permanecesse na escola e participasse das atividades esportivas, que também eram pagas.
A cada final de ano, quantos décimos terceiros salários foram destinados exclusivamente à compra de material escolar, livros e renovação de matrículas. Em contrapartida, também foram muitas as exigências – que digam eles – no acompanhamento rigoroso da vida escolar dos nossos meninos. Criamos até um método pedagógico-financeiro nada convencional: para cada nota 10, uma recompensa de R$ 10,00, com valor proporcional até a nota 7,0. Mas havia uma condição: bastava uma única nota abaixo de 6,0 para que todo o saldo fosse automaticamente zerado. Que Paulo Freire me perdoe por essa invenção inversamente pedagógica.
Para não me alongar ainda mais no despertar dessas memórias familiares, quero apenas registrar, com serenidade, que sentimos orgulho, sim – essa alegria mansa que nos invade – e, acima de tudo, uma imensa gratidão a Deus pela missão cumprida e, principalmente, por termos acreditado no poder da educação, da família e do afeto. Choramos. Sorrimos. Agradecemos. Porque, no fim das contas, cada esforço valeu a pena. “A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.” (Paulo Freire).
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