“Cultivamos a qualidade das nossas relações, e esse cultivo determinará se vamos desfrutar de boas companhias no fim da vida – ou se ficaremos sozinhos.” Lembrei dessa frase escrita pela médica Ana Claudia Quintana Arantes, no livro “A morte é um dia que vale a pena viver”, depois de escutar o primeiro episódio do podcast da Folha “A mulher da casa abandonada” que descreve justamente a mulher.

A reportagem revela que o primeiro sentimento externado por aqueles que descobriram haver uma pessoa morando em uma casa que, literalmente, está com os pedaços caindo, foi o de questionar o isolamento daquele ser humano e de querer ajudar. Tudo muda quando é revelado o envolvimento da mulher com um crime investigado pelo FBI.

É claro que este é um caso extremo, mas me remeteu ao livro de Ana Claudia Arantes porque nele ela, que é geriatra e especialista em cuidados paliativos, explica ser comum as pessoas questionarem familiares e amigos que abandonam idosos em casas de repouso. Porém, a médica observa que o fato de alguém ter ficado doente não é sinônimo de transformação nas relações que deixaram de ser construídas ao longo do tempo. 

A escritora é enfática ao lembrar que para ter com quem contar nos momentos de dificuldade é preciso cultivar relações reais se não quisermos fizer sozinhos nos momentos de maior vulnerabilidade. É isso o que acontece com a mulher da casa abandonada.

Mais do que um podcast sobre um crime, o relato feito por Chico Felitti é sobre a natureza humana e as consequências das escolhas que fazemos todos os dias. Como jornalista, ele foi a fundo na investigação e, ao meu ver, foi guiado pelo interesse público, já que por mais de 20 anos todos os moradores da redondeza sabiam estar convivendo com uma foragida da polícia e mesmo assim nada fizeram, à exceção, do que se sabe, de uma pessoa, que foi quem o ajudou a levantar fatos sobre o caso envolvendo a mulher, a casa e o FBI. 

Essa postura de fingir que nada sabe sobre o que já praticamente senso comum registrada no podcast, tanto no Brasil, como nos Estados Unidos, reforça outro ponto sobre as relações humanas. Assim como nós observamos aqueles que estão ao nosso redor, terceiros também nos observam, mesmo que não falem e/ou não nos conhecem diretamente, mas, não se iluda, as pessoas veem e sabem das nossas escolhas, especialmente em uma época dominada pelas telas que minam as mais ínfimas possibilidades de privacidade. Todos nos observam a todo momento.

Mas, voltando às relações reais, se você tem na sua vida quem tem observa e fala sobre o que vê sem a necessidade dos filtros ao estilo das redes sociais, sorte a sua, pois expor sentimentos e percepções sem máscaras é cada vez mais raro, cada vez mais para poucos, infelizmente, porque cuidar de si e do outro dá trabalho, porém só entende o valor disso os que se dispõem a essa experiência. 

O domínio das telas mina as mais ínfimas possibilidades de privacidade

Ana Claudia Arantes ressalta ainda que “a busca por segurança dentro do afeto é um buraco negro. É possível encontrar tudo ali, menos afeto verdadeiro. Usamos a máscara das boas relações e. No fim das contas, o que encontramos é a contracapa da nossa marca.” 

Mas nem tudo está perdido! Ao se dispor ao trabalho de construir relações reais e fazer o que lhe cabe neste cultivo você está dando grande chance a si mesmo e ao outro de evitar terminar sozinho em uma casa, seja ela abandonada ou não. A única certeza é a de que não vamos colher algo diferente do que foi plantado, por isso, livre-arbítrio, sempre.