“Aproxime-se das pessoas que não banalizam seus sentimentos. No momento em que seu coração voltar a bater organizadamente, com força e ritmo, e não for apenas um barulho esquisito dentro do peito; no momento em que a areia desse rio cheio de lembranças que corre dentro de você, toda revirada, turvando a água cristalina, começar a assentar – quando esse momento chegar, são essas pessoas que o ajudarão a compreender o novo som do seu coração.” Ana Cláudia Quintana Arantes | Pra vida toda valer a pena viver

Duvido, prezado leitor, que alguém questione a afirmação da geriatra e paliativista Ana Cláudia Arantes, de que devemos manter por perto as pessoas que não banalizam os nossos sentimentos. Não importa o que sentimos – alegria ou tristeza – o que importa é que lidar com essas emoções já é muita coisa para não tê-las respeitadas e ter que associar ao combo a frustração de sentir que não há permissão para sentir o que, de fato, sente.

Confuso? Sim, sem dúvida, como tudo o que envolve as emoções. 

Não por acaso, a orientação dos profissionais das mais variadas áreas é a de que para nos fortalecermos enquanto sociedade precisamos, primeiro, nos fortalecer enquanto indivíduos, o que pressupõe o autoconhecimento, cuidados com o corpo e com a mente. 

É a partir do conhecimento sobre si mesmo que o indivíduo consegue compreender o significado das emoções que sente e identificar as medidas que usa para mensurar essa ou aquela expressão emocional. Ao saber como e porque analisa a si mesmo de determinada forma é que será capaz de refletir sobre as modelos que usa para tentar encaixar o outro e se eles são válidos ou não, pois para ter a individualidade respeitada é preciso saber respeitar a individualidade do outro. Esse é o processo de aprendizagem da vida que, aliás, nunca acaba. 

Até aqui, acredito, estamos em comum acordo, certo? Mas se incluirmos no rol dos sentimentos e emoções os desejos sexuais? A sua concordância com a argumentação acima, estimado leitor, vai mudar? A pergunta está relacionada ao fato de que as relações sexuais também são orientadas pela busca dos indivíduos em satisfazer as próprias emoções. 

Nesse sentido, ao questionar, expor e ridicularizar relações homoafetivas, por exemplo, estamos desautorizando pessoas que se sentem atraídas por outras do mesmo sexo sob um rolo compressor de frustrações que, na melhor das hipóteses, acaba em situações como a que envolveu um casal e o padre da igreja mais famosa da capital potiguar. Pois, finais ainda mais trágicos não são incomuns, infelizmente.

Não, aqui não estou defendendo a conduta do padre, que, entre outros equívocos, fez uso da posição que ocupa para obter sexo, o que é crime. Falo da exposição do casal e me pergunto, se o homem, na infância e adolescência, não tivesse sido reprimido, teria ele casado com uma mulher, apesar de as emoções dele o guiarem para outro caminho? Dá para imaginar o quanto esse homem sofre por toda confusão criada pela “necessidade” de seguir padrões socialmente impostos? E as frustrações, no plural mesmo, sentidas pela mulher? E as consequências para a família? E se você, prezado leitor, está entre os que riram da situação, já parou para se perguntar como se sentiria se alguém muito próximo a você fosse um dos protagonistas dessa história, que nada tem de engraçada?

Esse é apenas mais um exemplo, super didático, da necessidade de falarmos sobre gênero em todos os ambientes, especialmente nas escolas. 

Não existem fórmulas para como as pessoas sentem prazer na relação sexual. Se assim fosse, não teríamos um contingente feminino significativo incapaz de chegar ao orgasmo em relações heterossexuais, por mais que queiram, por exemplo.

O prazer sexual pressupõe experimentar para se descobrir, o que só é possível, retomando o pensamento de Ana Cláudia Arantes, se estabelecermos relações com pessoas que não só não banalizem nossos sentimentos, mas nos acolham em nossa individualidade e a respeitem.

Falar sobre gênero não torna ninguém homossexual, porque, pra início de conversa, a pessoa homossexual é, não vira. Mas falar sobre gênero é o caminho para que eu e você aprendamos a respeitar a individualidade do outro, porque, além de não ser da nossa conta como cada um sente o que sente, obrigar o outro a se fazer caber em uma forma previamente definida é obrigá-lo a viver em uma prisão que banaliza sentimentos e destrói pessoas.