Deputado Albert Dickson afirmou que ivermectina contra covid tem dois apoios importantes: da Universidade de Oxford é do presidente Bolsonaro

O prefeito de Natal Álvaro Dias e o deputado estadual Albert Dickson continuam enganando a população sobre Ivermectina. Eles estão dizendo em suas redes sociais que o remédio foi considerado eficaz pela Universidade de Oxford contra a covid-19. No entanto, a universidade não confirmou eficácia do remédio, está testando ainda, para dizer se tem ou não.

De acordo com a agência de checagem Comprova, a Universidade de Oxford não encontrou “fortes indícios” da eficácia da ivermectina contra a Covid. O estudo está apenas no início e não possui expectativa de prazo para a publicação de resultados.

Mas tão logo saiu a informação sobre o estudo, o prefeito de Natal e o deputado correram para o Instagram. Álvaro Dias postou imagem manchete do site Terra afirmando: “Oxford testa ivermectina como possível tratamento para covid”. A foto, com marca do prefeito, destaca as palavras “Oxford e “ivermectina”, mas não a palavra “testa”. No texto, ele elogia a universidade e afirma que a instituição inglesa “diz que a ivermectina reduz a replicação do vírus em estudos laboratoriais, acrescentando que um pequeno estudo piloto mostrou que administrar o medicamento antecipadamente poderia reduzir a carga viral e a duração dos sintomas em pacientes com quadros leves de covid-19”.

Já Albert Dickson foi mais direto na sua publicação sobre o assunto. E escreveu: “A verdade prevalece: Ivermectina. Faz um ano que lutamos por ela. Ganhamos dois aliados Oxford e o presidente Jair Messias Bolsonaro. Oxford comprovou eficácia. Faz mais de um ano que comprovo in loco os seus resultado de sucesso com meus pacientes. Josué 1:09”.

O que aconteceu é que a Oxford comunicou que passaria a investigar a ivermectina como parte de um ensaio randomizado, destacando que o medicamento demonstrou reduzir a replicação do Sars-CoV-2 em estudos de laboratório, ou seja, sem testes em humanos, e que estudos-piloto, em escala reduzida, mostram que a administração precoce pode reduzir a carga viral e a duração dos sintomas em alguns pacientes com casos leves.

O estudo, entretanto, está apenas no início, e em nenhum momento o comunicado fala sobre prevenção da Covid, além de destacar que há poucas evidências de ensaios clínicos randomizados em grande escala para demonstrar que a ivermectina pode acelerar a recuperação da doença ou reduzir a internação hospitalar.

Albert Dickson ainda fez outra publicação em seguida, dessa vez afirmando que um estudo da revista Nature publicou artigo afirmando que a eficácia da ivermectina é “digna de atenção”. “É com muito orgulho que, neste instante, com a maior segurança do mundo e sabendo estar dentro da verdade por meio do agora apresentado, eu afirmo que… Estávamos certos! A maior autoridade em ciência do mundo, a Nature, publicou essa semana um estudo completo e detalhado sobre a eficácia da Ivermectina frente a Covid19. Trata-se de um artigo de revisão clínica baseado em evidências que nos apresenta todos os pontos de atuação do medicamento”, escreveu Dickson, que ainda criticou imprensa por não noticiar. “Se a Grande Mídia estivesse mesmo prezando por vidas humanas, faria matérias enormes sobre esta tão maravilhosa descoberta e assim guiaria milhões ao tratamento com Ivermectina, salvando incontáveis vidas e reduzindo assim a Covid19 a algo insignificante”.

Na realidade, não foi publicado na revista Nature. O estudo foi aceito e publicado por um jornal científico do Japão, conhecido como The Journal of Antibiotics. O jornal, na verdade, é publicado pelo Grupo de Publicação Nature, que é uma divisão da editora científica internacional Springer Nature. O principal periódico do grupo é a revista Nature. O periódico The Journal of Antibiotics possui um fator de impacto um pouco maior do que 2. Enquanto isso, a revista Nature possui um fator de impacto maior do que 42. Ou seja, são duas publicações completamente distintas que fazem parte do mesmo grupo.

O que a Oxford anunciou?

Em comunicado divulgado no dia 23 de junho, a Universidade de Oxford, na Inglaterra, informou que passaria a investigar a ivermectina como parte do ensaio randomizado, onde os integrantes serão escolhidos de forma aleatória.

A análise se dará no contexto do estudo Principle (sigla em inglês para Plataforma de Ensaio Randomizado de Tratamentos na Comunidade para Epidemias e Doenças Pandêmicas), conduzido nacionalmente com intuito de encontrar tratamentos para a recuperação rápida de infectados pelo coronavírus e que evitem internação hospitalar.

A publicação destaca que a ivermectina é um medicamento antiparasitário seguro e de amplo espectro, com propriedades antivirais conhecidas. Os responsáveis pelo estudo afirmam que o remédio demonstrou reduzir a replicação do Sars-CoV-2 em estudos de laboratório (pré-clínicos e sem testes em humanos) e que pequenos estudos-piloto (em pequena escala) mostram que a administração precoce pode reduzir a carga viral e a duração dos sintomas em alguns pacientes com casos leves. Não é citado nenhum estudo relacionado ao uso da ivermectina como remédio preventivo.

A divulgação não esclarece quais estudos são esses.

O anúncio divulgado pela Oxford observa, entretanto, que embora a ivermectina seja usada rotineiramente em alguns países para o tratamento da doença, há poucas evidências de ensaios clínicos randomizados em grande escala para demonstrar que ela pode acelerar a recuperação ou reduzir a internação hospitalar.

No texto, o professor Chris Butler, do Departamento de Ciências da Saúde de Atenção Primária de Nuffield da Universidade de Oxford, investigador-chefe adjunto do estudo, afirma que o medicamento tem bom perfil de segurança e que será estudado devido aos primeiros resultados promissores em alguns estudos. “Ao incluir a ivermectina em um ensaio de grande escala como Principle esperamos gerar evidências robustas para determinar a eficácia do tratamento contra a Covid-19 e se há benefícios ou danos associados ao seu uso”, disse. Em nenhum momento são citados “fortes indícios” dessa eficácia.

Como será o estudo com a ivermectina

Os responsáveis pelo Principle explicam que os voluntários passarão por triagem por meio de questionário e, em seguida, serão aleatoriamente designados para receber um curso de três dias relacionado ao tratamento com ivermectina via oral. A partir disso, serão acompanhados por 28 dias e comparados com participantes que foram designados a receber o tratamento padrão do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido.

Entre as pessoas elegíveis para o estudo estão aquelas com idades entre 18 e 64 anos com certas condições de saúde subjacentes/falta de ar devido à doença ou com idade acima de 65 anos, estando nos primeiros 14 dias após apresentarem sintomas ou tendo recebido um teste positivo.

A ivermectina é o sétimo tratamento a ser investigado pelo Principle, que também avalia atualmente o antiviral favipiravir, utilizado no tratamento da influenza.

Em abril deste ano, a universidade relatou evidências provisórias do primeiro medicamento eficaz do Reino Unido para tratar a Covid em pacientes em casa, a budesonida inalada, mostrando que o tratamento pode reduzir o tempo de recuperação em uma média de três dias. Desde então, o medicamento foi incluído nas diretrizes clínicas para o tratamento em estágio inicial no Reino Unido, Canadá e Índia.

O estudo também já concluiu que as substâncias azitromicina e doxiciclina não são um tratamento eficaz para reduzir o tempo de recuperação ou o risco de internação hospitalar para pessoas com suspeita de Covid.