Entre as consequências desse autodiagnóstico podem estar aumento de ansiedade, busca por tratamentos inadequados, frustração com intervenções ineficazes e atraso na identificação correta do quadro. | Foto: Reprodução

Cotidiano

Saúde Redes sociais ampliam desinformação sobre saúde mental, aponta estudo

Revisão identificou alta frequência de conteúdos imprecisos em plataformas digitais, com riscos de autodiagnóstico, banalização de sintomas e atraso no tratamento; mais de 50% dos conteúdos eram imprecisos ou sem fundamento

por: Léo Marques, da Agência Einstein

Publicado 8 de junho de 2026 às 19:00

As redes sociais viraram consultório improvisado para milhões de jovens em busca de respostas sobre ansiedade, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), autismo e outros transtornos mentais. O problema é que boa parte dessas respostas pode estar errada.

Uma revisão sistemática publicada em março no Journal of Social Media Research analisou a qualidade e a precisão das informações de mais de 5 mil postagens sobre saúde mental em plataformas como TikTok, YouTube, Instagram, Facebook e X. A conclusão: até 56% desses conteúdos eram imprecisos ou sem fundamento.

O TikTok apareceu como principal foco de desinformação, com destaque para TDAH e transtorno do espectro autista (TEA), com 52% e 41% dos vídeos contendo erros, respectivamente. Na média geral, a rede social chinesa concentrou 34,56% de desinformação sobre saúde mental e neurodivergência. Segundo os pesquisadores, fatores específicos da plataforma, como sistemas algorítmicos e moderação de conteúdo, podem influenciar a disseminação de desinformação.

Outro estudo, de 2025, com 490 estudantes universitários de Nova York, buscou entender os efeitos do conteúdo do TikTok no conhecimento sobre TDAH, no estigma e nas intenções de busca por tratamento. A análise concluiu que exposição à desinformação diminui o conhecimento correto sobre o transtorno e intensifica a intenção de buscar tratamentos para TDAH, com ou sem comprovação científica.

“Saúde mental é um campo complexo, com nuances diagnósticas importantes, que não se traduzem bem em formatos de poucos segundos. O resultado é uma compressão da ciência, onde conceitos sofisticados são transformados em listas simplistas ou identificações rápidas, aumentando o risco de distorção”, aponta o psiquiatra Luiz Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Bem-Estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita.

“Há uma tendência de romantização ou de banalização do diagnóstico, provocada exatamente por essa desinformação das redes sociais.”

Os conteúdos curtos tendem a ser mais persuasivos, porque condensam experiências subjetivas complexas em narrativas rápidas, emocionais e de fácil conexão. O impacto na audiência jovem pode ser ainda maior.

“Entre eles, isso se soma a uma fase do desenvolvimento marcada por busca de identidade, comparação social, necessidade de pertencimento e sensibilidade à validação de pares”, observa a psicóloga Karen Szupszynski, professora da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

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Impactos vão além do autodiagnóstico errado

De acordo com Zoldan, cresceu o número de pacientes que chegam com hipóteses fechadas baseadas em vídeos. Entre as consequências desse autodiagnóstico podem estar aumento de ansiedade, busca por tratamentos inadequados, frustração com intervenções ineficazes e atraso na identificação correta do quadro.

O impacto na audiência jovem pode ser ainda maior. | Foto: Reprodução

Publicações imprecisas ou enganosas podem levar ainda a outras consequências, como a discriminação antecipatória, onde a pessoa nem tem o diagnóstico e se rotula negativamente, trazendo um medo de estigma e preconceito. Isso, às vezes, acaba retardando a busca por atendimento profissional.

A patologização de comportamentos comuns é outro problema: distração, procrastinação, introversão, necessidade de rotina ou interesses específicos acabam se transformando em “sintomas” de transtornos como TDAH ou TEA.

“A diferenciação clínica desses quadros exige três pilares fundamentais: intensidade dos sintomas, persistência ao longo do tempo e prejuízo funcional na vida do paciente”, explica o psiquiatra. Ou seja, lapsos atencionais que não geram impacto no cotidiano não são um TDAH. Incômodos com ruídos específicos, seletividade alimentar pontual e dificuldades ocasionais em sociabilização que não trazem repercussão funcional não são um TEA nível 1 de suporte.

O que diz o TikTok

Em nota, o TikTok afirmou reconhecer o valor da plataforma como espaço de diálogo sobre saúde e neurodiversidade e disse levar a sério a responsabilidade de manter esse ambiente seguro. A empresa informou que incentiva usuários a procurar aconselhamento médico profissional e que sua política sobre desinformação em saúde proíbe conteúdos que possam causar danos significativos.

Segundo a plataforma, no quarto trimestre de 2025, 99,2% dos conteúdos que violavam diretrizes sobre desinformação foram removidos proativamente, assim como 99,7% dos conteúdos que infringiam políticas ligadas à saúde mental.

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