Monitoramento e presença da Polícia Militar reforçam o controle territorial e a estratégia de prevenção ao crime em Natal. | Foto: Reprodução
O Rio Grande do Norte registrou uma redução de 51,6% na taxa de homicídios entre os anos de 2014 e 2024. O índice de assassinatos por 100 mil habitantes caiu de 48,6 para 23,5 no período de 10 anos, atingindo o menor patamar da série histórica no último ano analisado. Os dados constam no Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Em números absolutos, o total de vítimas registradas oficialmente no estado recuou de 1.602 para 809.
A evolução dos indicadores mostra que, após o início da série em 2014, o estado enfrentou um crescimento acentuado na violência, atingindo o ápice em 2017. Naquele ano, ainda durante a gestão do governador Robinson Faria, a taxa de mortes chegou a 65,6 por 100 mil habitantes. Desde então, os índices iniciaram uma trajetória de queda progressiva até os dados consolidados de 2024.
Entre os grupos específicos, a redução mais expressiva ocorreu entre os jovens de 15 a 29 anos, com um recuo de 55,3% na taxa de homicídios registrados no estado. Apesar da queda geral acumulada, os dados de 2024 apontam a permanência de desafios estruturais na segurança pública: o uso de armas de fogo foi o instrumento utilizado em 78,6% dos homicídios registrados no Rio Grande do Norte no último ano.
A capital potiguar apresentou uma das maiores reduções entre as capitais brasileiras no último decênio, com queda de 64,2% na sua taxa de homicídios. No entanto, quando considerados os “homicídios ocultos” — mortes violentas por causa indeterminada reclassificadas após análise —, a taxa estimada para o estado sobe para 26,8, com 115 casos identificados nessa categoria em 2024.
A violência letal concentra-se nos polos urbanos. Mossoró lidera o ranking entre os municípios com mais de 100 mil habitantes, com taxa estimada de 36,0 (100 mortes). Natal aparece em seguida, com taxa de 24,1 (189 mortes estimadas), seguida por São Gonçalo do Amarante (23,5) e Parnamirim (16,0).
O perfil das vítimas revela desigualdades de raça e gênero. A população negra registra uma taxa de 31,0 homicídios, contra 10,2 de não negros. Em 2024, uma pessoa negra no estado teve 3,0 vezes mais chances de ser assassinada do que uma pessoa não negra. Entre as mulheres, foram 50 mortes no ano; a taxa de vitimização de mulheres negras (3,8) foi superior à de não negras (1,2).
A juventude é o grupo mais atingido pela violência no estado. Foram 368 homicídios de jovens entre 15 e 29 anos, com uma taxa de 49,8. Quando o recorte é restrito aos homens jovens, o índice sobe para 94,7. Na faixa entre 15 e 19 anos, o estado contabilizou 63 homicídios e 19 suicídios.
O levantamento detalha ainda os instrumentos e outros contextos de morte. Armas de fogo foram utilizadas em 636 crimes, representando 78,6% do total de homicídios. No trânsito, ocorreram 476 mortes, das quais os óbitos envolvendo motocicletas representam entre 51,1% e 59,6% dos casos. O Atlas registrou também 40 homicídios de idosos no estado.
O levantamento também apresenta a taxa de homicídios estimados, que inclui os “homicídios ocultos” reclassificados por metodologia de inteligência de dados. Nesta categoria, a redução foi de 46,7% no decênio. A taxa estimada, que era de 50,3 em 2014, recuou para 26,8 em 2024. O volume absoluto de mortes estimadas passou de 1.660 para 924 casos anuais.
BRASIL
Acompanhando a tendência registrada no Rio Grande do Norte, o Brasil atingiu, em 2024, a menor taxa de homicídios dos últimos 11 anos. O país registrou oficialmente 42.590 assassinatos no ano passado, o que representa uma taxa de 20,1 mortes para cada 100 mil habitantes.
O índice atual configura um recuo de 7,4% na taxa em comparação com 2023. Em números absolutos, a queda foi de 6,9% em relação às 45.747 mortes anotadas no período anterior. Em uma perspectiva de dez anos (2014-2024), a taxa nacional de homicídios apresentou uma redução acumulada de 33,4%. O Rio Grande do Norte figurou entre os estados com maiores quedas no decênio, com redução de 51,6%.
Os pesquisadores associam a redução a três fatores principais: a implementação de políticas de segurança baseadas em diagnósticos locais, mudanças nas dinâmicas de confronto entre facções criminosas e o envelhecimento populacional. O relatório faz uma ressalva técnica sobre o crescimento das mortes violentas por causa indeterminada (MVCI), que podem ocultar homicídios não classificados. Caso esses dados sejam integrados, a estimativa total sobe para 49.673 mortes, reduzindo a queda real para 0,4% em relação a 2023.
A distribuição da violência letal no território nacional não é homogênea. Dezoito unidades da federação registraram taxas acima da média nacional. Os maiores índices por 100 mil habitantes ocorreram no Amapá (45,7), Bahia (40,9) e Pernambuco (37,3). No extremo oposto, São Paulo (6,6), Santa Catarina (8,1) e Distrito Federal (10,3) apresentam os menores níveis de letalidade. No recorte anual, Maranhão (+7,6%) e Ceará (+5,2%) foram os únicos estados com aumento relevante.
O Atlas da Violência 2026 também detalha o perfil das ocorrências e das vítimas. As armas de fogo foram utilizadas em 70% dos homicídios registrados no Brasil em 2024. A população negra permanece como o principal alvo da violência letal, com o registro de um assassinato a cada 16 minutos. No segmento infantil e juvenil, o relatório destaca que a violência sexual corresponde a 45,5% das agressões notificadas contra meninas na faixa de 10 a 14 anos.
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