A partir de um estudo de caso na Barragem Passagem das Traíras, a pesquisa analisou seus aspectos históricos, técnicos e funcionais - Foto: José Yure Santos

Cotidiano

Desigualdades Estudo da UFRN aponta contradições das obras hídricas no Semiárido

O estudo conclui que, embora as barragens sejam estratégicas, sua gestão e a distribuição dos usos da água reproduzem desigualdades, privilegiando setores produtivos em detrimento do abastecimento das populações rurais

por: NOVO Notícias

Publicado 5 de fevereiro de 2026 às 15:29

O acesso à água no Semiárido Brasileiro constitui um desafio histórico marcado por desigualdades sociais, políticas e territoriais que extrapolam as limitações climáticas. É o que aponta um estudo realizado pela mestranda Emily Kadidja de Medeiros e pelo professor Leandro Vieira Cavalcante, do Programa de Pós-Graduação em Geografia do Centro de Ensino Superior do Seridó (GEOCERES), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), campus Caicó.

A pesquisa destaca que as obras hídricas, especialmente as barragens, assumem um papel central na organização do território e no enfrentamento da irregularidade hídrica. Contudo, o estudo conclui que, embora as barragens sejam estratégicas para o sistema hídrico regional, sua gestão e a distribuição dos usos da água reproduzem desigualdades históricas, privilegiando setores produtivos em detrimento do abastecimento das populações rurais.

No Seridó Potiguar, região marcada por longos períodos de estiagem, tais obras desempenham papel estratégico no abastecimento humano, na dessedentação animal e no suporte às atividades produtivas, explicam os pesquisadores. É nesse cenário que se insere a Barragem Passagem das Traíras, localizada entre os municípios de São José do Seridó e Jardim do Seridó, inaugurada em 1994, com capacidade de armazenamento de 48 milhões de metros cúbicos de água.

“A Barragem Passagem das Traíras tornou-se um exemplo emblemático das promessas e contradições que marcam a chamada ‘indústria da seca’, ao mesmo tempo em que ilustra uma infraestrutura essencial que, com o tempo, passou a apresentar vulnerabilidades”, ressaltam os pesquisadores.

A partir de um estudo de caso na Barragem Passagem das Traíras, a pesquisa analisou seus aspectos históricos, técnicos e funcionais, bem como suas implicações socioespaciais para as comunidades rurais do entorno. O estudo evidenciou que a interdição do reservatório entre 2018 e 2019 revelou fragilidades estruturais e institucionais, agravando a insegurança hídrica das comunidades dependentes. 

“Com a interdição da barragem, as famílias passaram a depender novamente de carros-pipa, poços rasos com altos índices de salinidade e estratégias emergenciais de abastecimento. Pequenas hortas familiares foram interrompidas, a criação animal sofreu redução e diversas rotinas produtivas foram desorganizadas”, observaram os pesquisadores.

Atualmente, após a conclusão das obras de reforma da barragem, em 2025, a Passagem das Traíras opera em volume morto, o que evidencia que a infraestrutura depende fortemente do comportamento pluviométrico, expondo as comunidades à sazonalidade extrema.

Os autores ressaltam outro aspecto relevante identificado nos resultados da pesquisa, relacionado às dimensões socioculturais da água. Em Quixabinha e Barra do Rio, comunidades localizadas nos arredores da barragem, a pesca artesanal desempenhava papel complementar na renda e na identidade comunitária. Com a interdição e a redução do espelho d’água, essa prática foi profundamente afetada, alterando modos de vida transmitidos entre gerações.

Além disso, aponta o estudo, as mulheres – principais responsáveis pela gestão doméstica da água – tiveram sua carga de trabalho ampliada, passando a percorrer distâncias maiores para buscar água em fontes alternativas, carregando recipientes e elaborando estratégias de economia doméstica.

De maneira geral, os dados analisados pelos autores mostram que a Barragem Passagem das Traíras representa um conjunto de contrariedades típicas da gestão da água no Semiárido: infraestrutura crucial, porém com acesso desigual; construção tecnicamente sólida, mas operacionalmente frágil; reservatório de uso público explorado de forma desigual por diferentes setores econômicos; promessa de cidadania que, no cotidiano, gera inseguranças; e símbolo de progresso que, paradoxalmente, produz vulnerabilidades territoriais.

Essas contradições, de acordo com os autores, confirmam que o acesso à água na região não é determinado apenas pela disponibilidade natural, mas por relações de poder, disputas políticas e desigualdades históricas, reafirmando a tese de que a injustiça hídrica é socialmente produzida, e não simplesmente decorrente da seca.

A pesquisa conclui que as barragens do Semiárido, a partir do exemplo da Barragem Passagem das Traíras, devem ser compreendidas como um dispositivo sociotécnico que articula poder, território e água, sendo necessária a superação do modelo hidráulico excludente por meio de uma gestão participativa, equitativa e orientada pela justiça hídrica.

A pesquisa foi publicada na revista International Journal Semiarid.

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