As tartarugas marinhas concentram a maior parte dos encalhes no RN, com destaque para a tartaruga-verde. | Foto: Divulgação

Cotidiano

Meio Ambiente Recorde de encalhes no litoral potiguar acende alerta para a conservação marinha

Entre dezembro e janeiro, foram 73 registros no estado. o centro de estudos e monitoramento ambiental aponta causas multifatoriais, como interações com pesca, poluição e condições climáticas adversas

por: Marline Negreiros

Publicado 26 de janeiro de 2026 às 16:00

O verão 2025/2026 trouxe um dado preocupante para a fauna marinha do Rio Grande do Norte. Entre 1º de dezembro de 2025 e 15 de janeiro de 2026, o Centro de Estudos e Monitoramento Ambiental (Cemam) registrou 73 encalhes de animais marinhos ao longo do litoral potiguar — o maior número dos últimos três períodos analisados. O volume representa um aumento de 52% em relação ao verão anterior (2024/2025), quando foram contabilizados 48 casos, e de 65% na comparação com 2023/2024, que teve 44 registros.

Segundo o presidente do Cemam-RN, Daniel Solon, o crescimento não pode ser atribuído a um único fator. “Esse aumento está relacionado a uma combinação de elementos, como o maior esforço de monitoramento e resposta, a intensificação da circulação de pessoas e embarcações durante o verão, condições oceanográficas adversas — a exemplo de correntes, ventos e ressacas — e o avanço de pressões antrópicas, como pesca, tráfego marítimo e poluição costeira”, explica. Ele destaca ainda que a maior divulgação dos canais de acionamento contribui para que mais ocorrências cheguem ao conhecimento da instituição.

Apesar do recorde, os dados não representam a totalidade dos encalhes ocorridos no estado. Os números refletem apenas os acionamentos recebidos e atendidos pelo Cemam no trecho entre Ceará-Mirim e Baía Formosa. Além disso, a instituição mantém um monitoramento regular e sistemático em parte do litoral norte, entre Rio do Fogo e São Bento do Norte, o que permite a identificação ativa de ocorrências, mesmo sem comunicação da população.

“A subnotificação é considerada comum, especialmente fora das áreas de monitoramento contínuo, em trechos de difícil acesso ou quando os animais não são avistados ou informados”, ressalta Solon. Por isso, embora fundamentais para traçar um panorama regional, os dados ainda não esgotam a dimensão real do problema ao longo da costa potiguar.

Tartarugas lideram registros

As tartarugas marinhas concentram a maior parte dos encalhes no Rio Grande do Norte, com destaque para a tartaruga-verde (Chelonia mydas). Também há registros de cetáceos, como golfinhos, e, de forma mais ocasional, de sirênios, a exemplo do peixe-boi-marinho.

Somente em janeiro deste ano, três ocorrências chamaram a atenção: o encalhe de mais de 10 golfinhos no início do ano na Praia da Redinha Nova, em Extremoz; uma tartaruga marinha encontrada morta em frente ao mercado da Redinha, na Zona Norte de Natal, no dia 20; e outra tartaruga localizada sem vida na praia de Búzios. “Fomos notificados e utilizamos o protocolo padrão para esses casos”, informou o Cemam.

Causas múltiplas e impacto humano

Na maioria das situações, os encalhes têm causas multifatoriais. Entre as mais recorrentes estão interações com a pesca — como emalhes e capturas acidentais —, ingestão de resíduos sólidos, colisões com embarcações, doenças, debilidade nutricional e fatores ambientais naturais. Em muitos casos, o estado avançado de decomposição impede a identificação precisa da causa da morte.

Ainda assim, a ação humana tem peso significativo. “Pesca, navegação, poluição marinha e ocupação desordenada da zona costeira aumentam os riscos para a fauna marinha e estão frequentemente associadas aos encalhes observados”, afirma o presidente do Cemam.

Quando ocorre um acionamento, a equipe avalia as informações recebidas e se desloca até o local para verificar a ocorrência. O atendimento varia conforme o estado do animal e pode incluir resgate, estabilização, reabilitação e posterior soltura, além do transporte para unidades de apoio. Também são realizados registros fotográficos, coleta de dados biométricos e, em casos de óbito, procedimentos de necropsia ou descarte adequado, sempre seguindo protocolos técnicos e legais.

O aumento dos casos, porém, impõe desafios. “A demanda por atendimentos, logística, insumos e equipe técnica cresce, o que dificulta o trabalho”, pontua Solon. A atuação do Cemam é feita de forma contínua e voluntária, reforçando a necessidade de investimentos, parcerias e apoio institucional para manter a qualidade do monitoramento.

Orientação à população

Ao encontrar um animal marinho encalhado, a orientação é clara: não tocar, não alimentar e não tentar devolver o animal ao mar. A população deve acionar imediatamente o Cemam, manter distância e afastar curiosos. No caso de animais vivos, é possível providenciar sombra para reduzir o estresse térmico até a chegada da equipe. Informações como localização, estado do animal e registros fotográficos ajudam a agilizar o atendimento.

Criado em 2014, o Centro de Estudos e Monitoramento Ambiental (Cemam) é uma Organização da Sociedade Civil com sede no Rio Grande do Norte, dedicada ao resgate, reabilitação e conservação da fauna marinha, como tartarugas, mamíferos e aves. Atua no litoral potiguar com monitoramento de praias, pesquisas científicas, projetos educacionais e resposta a desastres ambientais. O contato para resgates é pelo telefone/WhatsApp (84) 99943-0058.

Tags