Italiano Giuseppe Bruno foi preso no Brasil durante a Operação Arancia, em agosto de 2024. Foto: Reprodução
“Bruno vive no imóvel desde 17 de setembro do ano passado, quando obteve a prisão domiciliar. Junto ao alvará de soltura, enviou a prova de que a colaboração premiada de Bruno com o Ministério Público Federal (MPF) havia sido homologada no dia anterior”
Publicado 24 de janeiro de 2026 às 15:59
A revista Piauí publicou dia 20 de janeiro recente uma reportagem na qual conta a história de um suposto foragido da máfia italiana que mora em Natal, num flat em Ponta Negra. Giuseppe Bruno foi denunciado pelo Ministério Público Federal. Em setembro de 2024, o MPF divulgou a prisão do italiano, apontando-o como um dos três líderes do esquema mafioso com atuação no Rio Grande do Norte e na Paraíba.
Na reportagem, escrita pelo jornalista Vinicius Madureira, é dito que ele atualmente está em prisão domiciliar após firmar acordo de colaboração premiada. E que vive em um apartamento de 40 m² com vista para o mar.
Confira abaixo os principais trechos da reportagem e logo em seguida as informações do MPF divulgadas em setembro de 2024 sobre a operação Arancia, que investigou a lavagem de mais de R$ 300 milhões no Rio Grande do Norte e na Paraíba.

“O italiano Giuseppe Bruno leva uma vida confortável em Natal. Aos 52 anos, ele mora em um flat em Ponta Negra, um dos bairros mais valorizados da capital potiguar. O apartamento de 40 m² onde reside com um quarto, cozinha, sala de estar e varanda tem vista para a praia — o aluguel mensal no edifício começa em 3 mil reais. Na plataforma de locação de imóveis Airbnb, os hóspedes de outras unidades não poupam elogios ao prédio: “o ponto alto da hospedagem foi a vista para o mar”, “o apartamento possui uma localização maravilhosa”, “vista para o mar Maravilhosa!!”.
Bruno vive no imóvel desde 17 de setembro do ano passado, quando obteve a prisão domiciliar após decisão do juiz federal Mário Azevedo Jambo. Junto ao alvará de soltura, enviou a prova de que a colaboração premiada de Bruno com o Ministério Público Federal (MPF) havia sido homologada no dia anterior. Apesar da decisão, não faz nem um ano que as autoridades penitenciárias do Rio Grande do Norte retratavam Bruno como sendo de “alta periculosidade”, o que levanta questionamentos sobre o impacto dessa medida.
Usando tornozeleira eletrônica, Bruno deixou o pavilhão 2 da penitenciária de Ceará-Mirim, onde estava encarcerado desde agosto de 2024. Ele havia sido preso no escopo da Operação Arancia, que investiga o envolvimento dele e de outras pessoas nos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro para a máfia italiana em solo brasileiro. Segundo as apurações, ele faz parte de um dos braços da Cosa Nostra em estados do Nordeste brasileiro, incluindo o Rio Grande do Norte.
Mas a prisão domiciliar à beira-mar de Bruno e sua estadia no Brasil, onde vive desde 2016, pode ser revertida. A justiça italiana quer que ele seja julgado e, caso condenado, seja extraditado para cumprir pena em sua terra natal. Pouco mais de um mês após a prisão, ainda em 2024, o Tribunal de Palermo emitiu um mandado de prisão e o colocou na lista de procurados da Interpol. Em seguida, o escritório da agência no Brasil, tendo notícia de que o alvo vivia e circulava monitorado por Natal, representou a justiça brasileira solicitando a prisão em regime fechado de Bruno.
A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, e também relatora do caso, analisou, no dia 1º de dezembro, os aspectos legais do pedido dos italianos e deu sinal verde para a prisão. Em sua decisão, argumentou que, diante do risco concreto de fuga, típico dos processos de extradição, a melhor medida para o caso de Bruno seria mantê-lo no regime fechado.
Três dias depois, no dia 4 de dezembro, o Núcleo de Cooperação Internacional da Polícia Federal comunicou a prisão à ministra. A partir do momento em que essa comunicação estiver em mãos italianas, as autoridades de lá terão quarenta dias para formalizar o pedido de extradição, prazo este estipulado no tratado que o Brasil tem com a Itália. Se isso não acontecer, o pedido deixa de existir, assim como as razões para manutenção da prisão por esse motivo.
Documentos da administração penitenciária do Rio Grande do Norte obtidos pela piauí revelam que Bruno permanece na lista de monitorados com tornozeleira eletrônica desde o dia 17 de setembro de 2025 , ou seja, fora das grades desde quando foi beneficiado pela prisão domiciliar em razão da delação, em um desacordo com a determinação do Supremo. Procurada, a PF não se pronunciou.
São raríssimos os casos em que o Supremo é sensibilizado a deixar o extraditando em liberdade. As defesas dos réus com pedido de extradição tentam demonstrar de tudo, desde bons antecedentes, trabalho e residência fixos, vínculos familiares, documentos pessoais, mas sem sucesso. Em uma decisão recente do ministro Luiz Fux, a prisão domiciliar de um extraditando foi negada sob o argumento de que a prisão em regime fechado é a medida fundamental para garantir a efetividade da entrega ao país solicitante.
Por enquanto, o caso de Bruno segue indefinido. Uma audiência marcada para segunda-feira, dia 12 de janeiro, em que Bruno seria ouvido pela justiça italiana, foi adiada a pedido da defesa. A audiência foi reagendada para o dia 27 de fevereiro. Procurada pela Piauí, a advogada de defesa de Bruno, Patrícia Vasconcelos, disse em nota que os processos envolvendo seu cliente tramitam em segredo de Justiça e que, por esse motivo, não poderia se manifestar.”
O Ministério Público Federal (MPF) denunciou três italianos e seis brasileiros por envolvimento nos crimes de organização criminosa internacional e lavagem de dinheiro para a máfia italiana. A denúncia é resultado da Operação Arancia, que investigou uma ramificação da Cosa Nostra, uma das maiores organizações mafiosas da Itália e que comprovadamente atua no Brasil, especialmente no Rio Grande do Norte e na Paraíba. O trabalho é conduzido por uma Equipe Conjunta de Investigação (ECI), formada por autoridades brasileiras e italianas.
Segundo o MPF, as células da organização criminosa internacional instaladas no Brasil se dedicavam a diversas modalidades de lavagem de ativos. O grupo utilizava empresas de fachada e “laranjas” para dissimular o lucro proveniente de crimes como o tráfico de drogas, extorsão e homicídio.
A denúncia destaca que o grupo “edificou no Brasil uma estrutura complexa e extremamente organizada mediante dezenas de empresas de fachada, que movimentou milhões de reais através de pessoas sem lastro financeiro compatível (laranjas), as quais estavam sob o comando dos três líderes italianos mafiosos da Cosa Nostra no território brasileiro”.
Valores – As apurações indicam que o esquema resultou na lavagem de capital ilícito de, pelo menos, R$ 300 milhões (ou cinquenta milhões de euros) desde 2009. Segundo as autoridades italianas, entretanto, o valor total dos ativos investidos podem superar 500 milhões de euros, em valores atuais, mais de R$ 3 bilhões.
Entre os investimentos das empresas fictícias no Brasil, foram identificados um restaurante de luxo em Natal (RN), apartamentos em Cabedelo (PB), uma casa de luxo em um resort em Bananeiras (PB) e um grande loteamento residencial no município de Extremoz (RN), parcialmente financiados com lucros de tráfico de drogas e de extorsão praticados em Palermo.
Além da condenação dos envolvidos, o MPF pediu à Justiça a manutenção da prisão preventiva dos líderes da máfia. Dois deles já estão presos por outros crimes: Giuseppe Calvaruso – sob custódia na Itália – e Pietro Lagodana – que cumpre pena no Presídio Estadual de Alcaçuz, no RN. O terceiro italiano apontado como líder, Giuseppe Bruno, foi preso no Brasil durante a Operação Arancia, em agosto deste ano. Nesta terça-feira (17), a Segunda Turma do Tribunal Regional Federal da 5a Região (TRF5) negou pedido de habeas corpus e Giuseppe Bruno segue preso aguardando julgamento. Além dos três chefes, foram denunciados seis brasileiros acusados de integrarem a organização em diferentes períodos, incluindo companheiras dos italianos.
Cooperação Internacional – Deflagrada em 13 de agosto deste ano, a Operação Arancia resultou na execução do mandado de prisão preventiva de Giuseppe Bruno e cinco mandados de busca e apreensão, em três estados brasileiros: Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Piauí. Simultaneamente, a Direção Distrital Antimáfia de Palermo coordenou 21 buscas em várias regiões da Itália e na Suíça. Mais de cem agentes financeiros italianos foram mobilizados.
A Equipe Conjunta de Investigação (ECI) responsável pela operação é formada pelo MPF, Polícia Federal, Procuradoria de Palermo e pela polícia italiana, com o apoio da Agência da União Europeia para a Cooperação Judiciária Penal, Eurojust. Nessa frente, o MPF teve papel decisivo. A Secretaria de Cooperação Internacional do órgão firmou o acordo para a constituição da equipe e o Ministério Público Federal no Rio Grande do Norte (MPF/RN) assumiu a coordenação do grupo juntamente com a Polícia Federal. A formação da ECI tramitou no Ministério da Justiça e está em conformidade com a Convenção de Palermo, que é o principal instrumento global de combate ao crime organizado transnacional.
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