Geraldo Pinheiro é médico psiquiatra e escreve para o NOVO quinzenalmente.

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Opinião

Artigo Geraldo Pinheiro: O TDAH e as recompensas

A necessidade de recompensas imediatas – característica de muitos portadores de TDAH – é salientada por uma marca dos tempos atuais: tudo precisa ser rápido, imediato, mesmo para quem não tem o diagnóstico de TDAH

por: Geraldo Pinheiro, médico psiquiatra

Publicado 19 de janeiro de 2026 às 17:15

O TDAH é, hoje em dia, condição muito propalada na mídia e nas conversas do dia a dia. A todo tempo, alguém está falando, ou em conversas rotineiras, ou em algum vídeo do tiktok, que tem TDAH ou que conhece alguém que tem. Daí para começar a elaborar orientações é um passo. É claro que, como deve ser bem sabido de todos, sempre é possível esperar de um humano verdades e mentiras, acertos e enganos, ações de boa ou má fé. Pois bem, com o advento do mundo online e das mídias sociais, essa evidência continua em voga: nada mudou como diz Eclesiastes (capítulo 1, versículo 9): “o que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; não há nada de novo debaixo do Sol”.

Porém, embora seja verdade que os erros, enganos ou mentiras possam acontecer tanto no mundo real, como no mundo digital, a facilidade atual de propagação de informações – corretas e errôneas –, que o mundo digital nos trouxe, pode fazer com que, nos tempos atuais, tanto o acesso à informação correta seja mais benéfico para os leitores, como o acesso à informação incorreta seja mais prejudicial para os mesmos leitores. É claro que precisamos aprender a separar o joio do trigo (para repetir outra citação bíblica).

O último texto que escrevi para o Novo Notícias – “Falando sobre o TDAH” – é uma humilde contribuição para aqueles que querem entender melhor essa condição psiquiátrica. Naquele texto, elaboro uma descrição um pouco mais extensa sobre essa condição. Nesse texto atual, tenho outros objetivos.

O TDAH é uma condição em que o indivíduo, dentre outras coisas, sente uma necessidade de recompensas imediatas. Claro que nem todas as pessoas portadoras de TDAH são assim, mas é esperado – sobretudo naquelas que mais se concentram no polo da hiperatividade/impulsividade – que elas tenham dificuldade para esperar. Essa dificuldade para esperar tanto pode se manifestar numa fila de supermercado, num trânsito pesado, num diálogo em que o outro é um pouco mais prolixo, como também para verificar o produto final de um trabalho. Se esse produto desse trabalho for demorado, maçante, perde-se a paciência e aquele trabalho é abandonado. 

Por outro lado – e de forma aparentemente contraditória – é possível surgir o famoso hiperfoco. Alguns envolvem-se em atividades e, mesmo que tais atividades sejam demoradas e a conclusão não esteja num horizonte tangível, é possível que aconteça um engajamento exuberante e a tarefa siga até o fim.

Sim, os parágrafos acima aparentemente se contradizem. Eu digo “aparentemente” e preciso explicar por que essa contradição é apenas aparente. Acontece que ainda não foi falado nesse texto de uma camada mais profunda no entendimento das recompensas. Uma atividade enfadonha e longa, que não traga – para esse indivíduo – uma recompensa, um prazer, uma satisfação imediata, terá um grande risco de ser abandonada. Por outro lado, uma atividade longa, extensa, mas que, a cada momento, traga resultados excitantes, estimulantes, prazerosos, terá uma grande chance de envolver esse indivíduo na teia da recompensa imediata. Mesmo que o produto final desta tarefa esteja além de um horizonte visível, mesmo que seja um objetivo um tanto quanto distante, como há um estímulo no “aqui e agora”, como o indivíduo se sente constantemente estimulado e recompensado, há uma grande possibilidade de o próprio fazer se autoalimentar e virar o que se chama de hiperfoco.

O hiperfoco pode se manifestar em tarefas saudáveis e favoráveis ao indivíduo como: leituras, estudo, atividade física, atividades laborais. Se o indivíduo conseguir encontrar, em algum segmento da vida, algo produtivo, é possível que o hiperfoco se transforme em produtividade. É claro que, como sabemos, tudo tem um limite. Mesmo o hiperfoco saudável pode evoluir para algo exagerado. Todos nós necessitamos encontrar equilíbrio em nossas vidas e o indivíduo deverá tentar encontrar outras motivações na sua vida para além do tema do hiperfoco. 

Por outro lado, existe a possibilidade de uma evolução negativa. A busca frenética por prazeres imediatos pode levar o indivíduo a encontrar tais prazeres, por exemplo, nas drogas de abuso. O principal exemplo é a cocaína. O consumo dessa substância promove um regime de euforia, de autoestima elevada, de sensação plena de energia – essa coleção de características surge de forma rápida após o consumo da substância. Acredito que é fácil perceber o quanto que, para um cérebro ávido por recompensas imediatas, há aqui um terreno fértil para o sujeito evoluir para uma síndrome de dependência em relação a essa substância, dialogando com as necessidades de recompensas imediatas de um cérebro gerador de TDAH.

A cocaína não é o único exemplo com potencial para gerar evoluções desfavoráveis. A ingestão alimentar, o consumo de pornografia digital, o envolvimento em jogos digitais – todos esses exemplos – têm o potencial de promover recompensas imediatas e, cada um a seu modo, quando feito em excesso, pode trazer a possibilidade de evoluções negativas. 

A necessidade de recompensas imediatas – característica de muitos portadores de TDAH – é salientada por uma marca dos tempos atuais: tudo precisa ser rápido, imediato, mesmo para quem não tem o diagnóstico de TDAH.

Há um clima de que tudo precisa acontecer rápido: a mensagem no whatsapp precisa ser rapidamente respondida; o texto que vamos ler precisa ser lido em segundos (conclusão inevitável: os textos precisam ser curtos); o ideal é que os vídeos que vemos nos nossos celulares tenham menos de um minuto; o áudio que eu escuto no meu celular preciso colocar na velocidade 1,5x ou 2x (há alguns que conseguem programar seu celular para velocidades ainda maiores…). 

É claro que uma consequência inevitável é uma superficialidade generalizada nos processos de interação com o outro e consigo mesmo. É palpável uma fluidez – para citar Bauman, embora a fluidez aqui falada apenas dialogue com aspectos do pensamento do filósofo – em todos os dispositivos da nossa vida. A pergunta que fica é: aonde vamos parar?

Para além dessa discussão, entra em cena um objeto que tem íntima relação com o imediatismo: o celular.

Tudo (ou quase tudo…) nesta vida pode existir para o bem e para o mal. É claro que o celular nos trouxe inúmeros confortos e possibilidades de comunicação e de informação (dentre outras). Porém, a possibilidade de ter, na palma da mão, um objeto que lhe entregue “tudo” é encantador. Isso, “encantados” é uma palavra reveladora para descrever pessoas que ficam horas e horas contemplando o celular, rolando a tela.

Haverá retorno? Não sei. Acredito que algumas pessoas – mesmo aquelas portadoras da condição psiquiátrica TDAH – podem treinar, com o auxílio muitas vezes de um profissional (psicólogo, por exemplo), manter o uso do celular e ao mesmo tempo conseguir ter paciência para se aprofundar naquilo que precisam se aprofundar, incluindo no próprio eu. Há tempo para tudo. E esse tempo há de chegar. 

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